Crítica: O Hobbit – Uma Jornada Inesperada

 

Livros são fontes de uma magia que os diferencia completamente de outras formas de se contar uma história, pois só lendo é que conseguimos interpretar o que é contado de maneira tão pessoal. Quando assistimos a um filme, acompanhamos o que é contado. Podemos até imaginar tudo o que aconteceu antes e depois, ou mesmo durante o filme e não foi mostrado, mas ainda assim nossa mente já se condicionou a usar como base tudo o que a obra estabeleceu como real; sejam as aparências dos personagens, o ambiente ou mesmo coisas pequenas, como vozes ou o número de suas casas. Essa é justamente a magia deles e é por isso que adaptar um livro para qualquer outra mídia costuma ser uma tarefa tão difícil – esse fator humano em específico faz toda a diferença.

Acredito que por isso a trilogia “O Senhor dos Anéis” tenha dado tão certo no cinema. Peter Jackson foi capaz de captar a magia única que habitava os três livros. Tudo o que todos os fãs queriam e imaginavam estava ali, nem sempre exatamente como em suas cabeças, mas certamente bem próximo disso. O filme fez mais, levou o encanto para milhões de pessoas que jamais tinha lido ou ouvido falar dos romances originais e também as fisgou. Tudo bem, muitas destas pessoas, quando vêem alguém lendo os livros ainda perguntam “não é melhor ver os filmes?”, mas ainda há espaço para a compreensão, elas não foram devidamente enfeitiçadas.

Isso ajudou a fazer de “O Hobbit” um dos longas mais esperados do ano. O retorno à magia que marcou “O Senhor dos Anéis” e uma nova viagem ao mundo criado por Tolkien, tão bem reproduzido pela ótica de Jackson. Mas o caminho para a obra no cinema foi difícil, entre a quase falência do estúdio, a desistência de Guillermo Del Toro do projeto, os períodos de enfermidade de Jackson e a polêmica (e até então inexplicável) divisão do romance em três filmes foram só alguns dos percalços que “O Hobbit” precisou enfrentar.

Mas, após assistir “Uma Jornada Inesperada”, dá pra dizer sem medo que Peter Jackson conseguiu outra vez. Ele trouxe de volta a magia que já tinha encontrado e cultivado nos três “O Senhor dos Anéis”, mas não sem dar a este filme a atmosfera mais leve que ele deveria e tem.

“O Hobbit” é um livro muito mais dinâmico do que a trilogia do anel, nele Tolkien não se perdeu em descrições e explicações até por se tratar de uma obra com foco no público infantil. Então tudo é mais direto ao ponto, mais inocente e os alívios cômicos quase inexistentes na jornada de Frodo são abundantes aqui. E o diretor se preocupou bastante com esse ponto, aproveitando a característica presente em Gimli, usada nos treze anões apresentados na história e a isso somando o tato para o humor que Martin Freeman domina. “O Hobbit” consegue apelar para todos os públicos sem parecer estúpido.

É contado no filme o início da história que levou aos eventos da trilogia “O Senhor dos Anéis”, ao menos a parte que diz respeito a Bilbo, quando ainda era jovem. Já no princípio do longa é apresentada a conexão entre as duas sagas, com uma cena entre Bilbo e Frodo na preparação do aniversário de 111 anos do agora protagonista.

Algumas falas do livro são reproduzidas exatamente iguais no filme, como a do bom dia na primeira conversa entre Bilbo e Gandalf. No entanto outras foram totalmente mudadas como a apresentação dos anões, que no filme foi melhor trabalhada e durou bem mais, servindo como uma introdução mais completa aos treze novos personagens. Personagens estes que funcionam muito melhor em ação do que apenas por fotos, mesmo com suas aparências mais “leves” – ainda que seja compreensível, pois eles precisavam ser facilmente diferenciáveis aos olhos do público.

O filme então abusa de cenas e momentos que remetem ao “Sociedade do Anel” com as inseguranças do grupo, a volta a cenários antes visitados, e as tomadas em planícies. A todo o momento temos o gostinho de voltar uns bons anos no tempo, para quando o primeiro “Senhor dos Anéis” esteve nas telonas. Isso de fato ajuda na ambientação e a familiaridade facilita a imersão do espectador. Aliás, a preocupação de Jackson em manter o longa o mais visualmente parecido possível com os outros três foi fundamental, em momento nenhum você se sente fora da Terra-média que conheceu. Ela está lá tão palpável quanto antes, mas agora com um tom mais leve, servindo como o pé da obra no livro do qual foi baseada.

 

E em se tratando de adaptação, todas as decisões do diretor, Guillermo Del Toro e os demais roteiristas tomaram foram acertadas. No romance, muitas (para não dizer todas) as cenas são extremamente curtas, de forma que se fossem representadas no filme não teriam muito mais que dois ou três minutos cada. Então a adição de falas e ações foram necessárias, além das modificações no enredo que procuram “consertar” isso e uma série momentos que não funcionariam no cinema.

Para ajudar a encorpar a história do filme, os roteiristas optaram por adicionar diversas cenas não descritas no livro, mas em apêndices publicados após a morte de Tolkien. Todos tratando de eventos que aconteceram antes, durante e depois de “O Hobbit”, mas que tinham contexto na história contada aqui, além de algumas cenas completamente novas que funcionam melhor no cinema e tornam o filme mais dinâmico, principalmente quando é o momento da ação.

Um dos problemas que os roteiristas enfrentaram foi a completa ausência de um vilão neste primeiro filme – e isso num volume ainda maior que o visto em “A Sociedade do Anel”, porque lá, querendo ou não, Sauron não foi um antagonista de presença física, mas ainda assim influenciava e participava constantemente da história. O dragão Smaug não tinha a possibilidade de fazer isso sem estragar completamente a obra, pois o trecho do livro presente no longa não mostra nada além da viagem dos anões até a Montanha Solitária. Desta forma Azog foi adicionado à trama.

O rei orc de Moria foi introduzido de forma bem inteligente e serviu como um antagonista interessante (principalmente pela forma como ele passou a atingir Thorin na metade final da película), enquanto os outros dois vilões são apresentadosao espectador: Smaug e o misterioso Necromante. A presença de Azog tornou Thorin um personagem mais complexo e fez suas motivações mais compreensíveis para o público, dando um plano de fundo a um personagem que no livro se sustenta apenas pelo que dizem dele e pelo pouco é desenvolvido dentro da linha principal da história.

No entanto, Azog também é o símbolo de um dos “problemas” do filme: os inimigos quase em sua totalidade são digitais. O que, na verdade, não deveria ser um problema atualmente, mas quando lembramos que em “O Senhor dos Anéis” a maior parte dos inimiagos enfrentados eram pessoas reais com maquiagem e figurinos impecáveis. Em “O Hobbit” os mocinhos estão sempre enfrentando obstáculos digitais, o que não é muito agradável aos olhos, principalmente quando você nota que ele poderia ter sido feito por um ator caracterizado.

Mas nem tudo é ruim nesse lado do filme. Porque outra vez nosso velho amigo Gollum (novamente interpretado pelo ótimo Andy Serkis, que também merece elogios por ter dirigido a todas as tomadas de ação do longa) rouba os holofotes em uma das cenas mais esperadas e mais bem conduzidas de “O Hobbit”: a das charadas no escuro. Que em certa hora me chamou a atenção quando a música tema dos filmes anteriores é tocada no momento preciso em que este prelúdio se liga aos eventos deles. O que me lembra: a trilha de Howard Shore continua sendo parte importante da alma da história.

 

 

Outra cena muito bem construída foi o encontro com os trolls, onde o desfecho funcionou na adaptação e deu um pouco mais de importância a Bilbo. E este é um ponto interessante do filme, no livro Bilbo é constantemente levado pelo curso que a ação toma, enquanto na telona ele assume a posição de protagonista em momentos como este, me fazendo até lembrar de Sam na Trilogia do Anel, grande responsável pela história ter chegado no ponto onde chegou. Sem ele, Frodo jamais teria ido tão longe.

A ação foi uma grata surpresa. Ela quase não existe no romance, então praticamente todas as cenas vistas em “Uma Jornada Inesperada” foram adicionadas para ‘encorpar’ a obra e torná-la mais dinâmica. Funcionou e muito bem, os principais momentos do filme foram pautados por elas. Destaque para a participação do mago Radagast, o Castanho – que ganhou muito mais tempo de cena do que o esperado e me agradou muito.

 

“O Hobbit: Uma Jornada Inesperada” funciona como filme e adaptação, mas faz mais que isso, ele dá ainda mais profundidade à uma Terra-média que já havia sido bem detalhada nos três longas. Peter Jackson voltou a estabeleceu um novo patamar quando o assunto é levar obras literárias para a grande tela e nos entregou um filme que, ouso dizer, é mais divertido (até por ser mais despretensioso) que “A Sociedade do Anel” e quase tão épico quanto.

Ele acerta em tudo o que a trilogia anterior acertou, abusa dos paralelos e referências a ela (se tornando um prato cheio para os fãs) e só peca pelo uso excessivo – talvez até necessário – da computação gráfica no lugar de atores e maquiagem. Jackson tem feito muito não só pelos fãs de Tolkien, mas também por todos aqueles que passaram tanto tempo se sentindo orfãos de bons filmes de fantasia como estes que ele nos entregou.
Confira a seguir todos os trailers e comerciais de TV de “O Hobbit – Uma Jornada Inesperada”:

 

O Hobbit: Uma Jornada Inesperada – Comercial de TV 5

 

Fonte: http://blogs.pop.com.br/cinema/critica-o-hobbit-uma-jornada-inesperada/

 

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