Dilma diz que vai ao Senado para que ‘golpe nunca mais aconteça no país’

A presidente Dilma Rousseff recebe flores da plateia durante ato em Brasília
A presidente Dilma Rousseff recebe flores da plateia durante ato em Brasília

Dilma Rousseff chegou pouco depois das 20h desta quarta-feira (24) a um teatro em Brasília, naquele que seria seu último ato público antes do início do julgamento final de seu impeachment.

Da linha de frente de seu governo, contava apenas com a companhia do ex-ministro da Casa Civil Jaques Wagner. Ambos com o semblante bastante cansado.

Vestindo calça preta e camisa vermelha, Dilma ensaiou sorrisos, recebeu flores da plateia de cerca de 500 pessoas e disse vai se defender no plenário do Senado, na próxima segunda (29), para que o que chama de golpe “nunca mais aconteça no país”.

Em seu discurso de pouco mais de meia hora, Dilma disse ainda que vive um “outro momento histórico” e, por isso, não precisará “renunciar”, se “suicidar” ou “fugir para o Uruguai” para lutar pela democracia. Assim como havia feito em um evento nesta terça (23), em São Paulo, ela se referiu ao suicídio do ex-presidente Getúlio Vargas e ao exílio de João Goulart.

“Getúlio Vargas suicidou-se porque queria preservar a democracia e conseguiu adiar o golpe. Hoje eu não tenho que renunciar, não tenho que me suicidar, não tenho que fugir para o Uruguai. É um outro momento histórico”, afirmou a presidente afastada.

“A renúncia era algo que, segundo o esteriótipo que eles [oposição a ela] têm na cabeça, eu faria por ser mulher. Não renuncio porque sou absolutamente incômoda: não cometi nenhum crime, nunca recebi dinheiro de corrupção”, declarou.

Dilma repetiu ideias que tem ressoado há 103 dias, desde que foi afastada do Palácio do Planalto. Ressaltou o papel das mulheres ao apoiá-la nos últimos meses, disse que é vítima de um “golpe grandão” e que tem “capacidade de resistir”. Defendeu ainda um plebiscito para a realização de novas eleiçõescomo forma de resolver o impasse político do país.

‘CARA DE PAU’

Dilma chamou de “cara de pau” a proposta da equipe do presidente interino, Michel Temer, de adotar “medidas amargas” na economia após o processo de impeachment.

“A PEC 241, que pretende congelar os gastos da educação e da saúde, em termos reais por 20 anos… Deus me livre. O que ela significa? Um golpe grandão”, disse em referência ao projeto que estabelece um teto para os gastos públicos, prioridade do governo Temer em votação no Congresso.

“Nós sabemos o que vem por aí caso eles ganhem [a votação do impeachment]. Eles adotarão medidas impopulares. Eles falam na maior cara de pau”, completou a petista.

CARTA

Aparentando cansaço —Dilma tem trabalhado de dez a doze horas diárias para convencer senadores a votar contra o impeachment no Senado: ela precisa de 28 dos 81 votos—, a petista ouviu, de cenho franzido, a leitura de uma carta da Frente Brasil Popular antes de fazer seu discurso.

O texto fazia um balanço do processo que teve início em 2 de dezembro do ano passado, quando o então presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), chamado de “gângster” no documento, aceitou o processo de impeachment. Os integrantes dos movimentos sociais que elaboraram a carta ainda indicavam pleitos para o futuro. Dilma chegou a cruzar os braços.

Ao começar sua fala, Dilma pareceu ganhar ânimo. Reclamou da “cansativa” nominata, mas fez questão de cumprimentar os presentes. Eram poucos, porém, os parlamentares ou ex-integrantes do primeiro escalão de seu governo que ocupavam as cadeiras do palco ou do teatro.

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