O interno Gerson Monteiro, no Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena (MG)
O interno Gerson Monteiro, no Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena (MG)

Aos 59 anos, Sueli da Silva mora desde os 10 no atual Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena (MG), antigo hospital Colônia, então o maior manicômio do Brasil.

Diagnosticada com esquizofrenia paranoide, é considerada apta a deixar o instituto e ser gradualmente reintegrada à sociedade, mas ela não tem para onde ir.

O centro, gerido pelo Estado, quer levar Sueli e outras 79 pessoas para viver em casas adaptadas à moradia de ex-internos, acompanhados de um cuidador. Mas as residências são custeadas pelo município, que afirma não ter dinheiro para bancar a mudança e pede a ampliação de repasses de verbas federais.

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Apesar de uma lei de 2001 determinar que moradores de longo tempo de hospitais psiquiátricos sejam “objeto de política específica de alta planejada e reabilitação psicossocial assistida”, o centro de Barbacena continua com 149 internos sem previsão de saída. A maioria está lá há décadas –a mais antiga, Perciliana dos Santos, 96, desde 1945.

Em 2004, 46 pacientes antigos chegaram a receber alta do centro, mas desde 2006 este número não ultrapassa dez pessoas. De 2015 a 2016 foram apenas três, embora uma manobra contábil diga que foram mais. Na verdade, o número excedente era de recém-transferidas de um hospital particular e que tinham prazo para deixar a instituição.

Barbacena é conhecida como a “cidade dos loucos” e o Colônia já foi comparado a um campo de concentração. Fundado em 1903, foi famoso pelas más condições oferecidas aos internos até os anos 1980. Com 200 leitos, chegou a abrigar simultaneamente 3.500 pacientes. Tinha uma média de mil mortes por ano.

Eram levadas para lá pessoas não necessariamente com doença mental. Grupos marginalizados como homossexuais, prostitutas e moradores de rua eram colocados em um trem e despejados no instituto. Crianças também eram internadas –Sueli da Silva foi uma delas– e abandonadas por suas famílias. Ainda hoje, a maioria não tem familiares reconhecidos.

Nos últimos 30 anos, o hospital sofreu uma reformulação e passou a dar o que chama de “tratamento humanizado”. Sem superlotação, ainda sofre com sucateamentos comuns ao serviço público –uma antiga ambulância foi improvisada como carro de transporte de alimentos, por exemplo. Dos 149 pacientes crônicos, os 80 que podem sair estão em melhores condições clínicas.

Os internos vivem em módulos onde dormem 15 pessoas, têm assistência médica e refeições em horários determinados. Eles podem andar pelas instalações do centro, exceto os que estão na ala dos “mais crônicos”, que costumam fugir ou têm comportamento violento. Esses ficam cercados por grades.

“Estou preso na escola. Me prenderam de novo”, riu o interno Francisco Santana, 56, de trás das grades. Ex-alcoólatra e com crises de psicose, ele é mantido no módulo cercado porque costuma “andar até se perder”.

PROTESTOS

Parte dos funcionários tem feito campanha para que os internos sejam mantidos no centro. Para eles, estão em melhor condição no instituto do que nas residências.

“Aqui eles passeiam, vão ao restaurante. Lá nas casas ficam sem fazer nada. A gente tinha uma paciente, a Cremilda, que saiu daqui andando, mas hoje está acamada”, diz a técnica em enfermagem Fátima Tertuliano.

Outra parte discorda. “Imagina que, nas residências, se eles querem tomar café depois do horário do almoço, podem. Não vão ficar com a caneca na mão a tarde inteira. Aqui todo mundo é igual por uma questão de economia, não têm suas singularidades reconhecidas”, afirma a enfermeira Daniela Viana.

JOSÉ MARQUES
ENVIADO ESPECIAL DA FOLHA DE S.PAULO A BARBACENA (MG)


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