Os Estados Unidos, primeiro contribuinte na luta contra a Aids, deve continuar comprometido financeiramente, pediram os organizadores de uma conferência internacional sobre a pandemia que começou neste domingo (23) em Paris.

“Os americanos representam um financiamento essencial neste campo e precisamos que continuem comprometidos”, declarou à imprensa Linda-Gail Bekker, pesquisadora do centro Desmond Tutu sobre a Aids na África do Sul e presidente da Sociedade Internacional da Aids. Caso contrário, haverá mais mortes e um aumento dos contágios, alertou.

A conferência de Paris, que reúne 6.000 participantes, a nata da pesquisa mundial, até quarta-feira no Palácio dos Congressos da capital francesa, publicou uma “Declaração de Paris” para expressar seus temores, antes mesmo da abertura.

Continua após a publicidade

“Não haverá fim do HIV sem pesquisa, nem pesquisa sem investimentos duradouros”, diz o texto.

Os Estados Unidos são historicamente o país que mais investiu na luta contra a Aids, com quantias equivalentes a mais de dois terços dos investimentos governamentais internacionais.

No ano passado, Washington dedicou 4,9 bilhões de dólares a programas de luta contra a doença, muito à frente do Reino Unido (645,6 milhões) e da França (242,4 milhões). Mas o presidente Donald Trump propõe reduzir esses gastos em mais de um bilhão de dólares no orçamento de 2018, o que está sendo debatido no Congresso, segundo cálculos da ONG americana Health Gap.

Duro golpe

É preciso “reduzir o financiamento de vários programas sanitários, incluídos alguns que se referem à Aids, tendo em conta que outros doadores deveriam aumentar sua contribuição”, escreveu Trump em maio no projeto de orçamento.

Se o Congresso aprovar, os cortes privarão 830.000 pacientes (principalmente africanos) de antirretrovirais, que impedem o desenvolvimento do vírus, segundo a estimativa da Kaiser Family Foundation, ONG americana especializada em políticas de saúde. Essa decisão provocará 200.000 novas infecções, segundo a mesma fonte.

O projeto de Trump prevê uma redução de 17% do investimento americano no Fundo Mundial de Luta contra a Aids, Tuberculose e Malária, que será de 1,13 bilhão de dólares, 222 milhões a menos que em 2017.

“Os Estados Unidos representam cerca de um terço do financiamento total do Fundo Mundial, motivo pelo qual uma queda de 17% de sua contribuição seria um duro golpe”, teme Alix Zuinghedau, do Coalition Plus, grupo de associações de luta contra a aids.

Avanços

Os planos de Trump também deixam outra incógnita: o orçamento dedicado ao Pepfar, o programa iniciado em 2003 por George W. Bush que permite que mais de 12 milhões de pacientes tenham acesso a tratamentos antirretrovirais.

“Não falamos de um simples risco de desaceleração da luta contra a Aids: esses cortes orçamentários podem causar um verdadeiro retrocesso em relação aos avanços que conquistamos”, insistiu Bekker, que considera esse cenário “uma tragédia”.

Os avanços têm sido significativos nos últimos anos. O vírus da Aids matou um milhão de pessoas em 2016, quase metade do que em 2005, anunciou nesta quinta-feira a Unaids, o programa da ONU para combater a doença.

No ano passado, 36,7 milhões de pessoas viviam com o vírus HIV, e mais da metade (19,5 milhões) tinha acesso a tratamentos.

Em 2016, doadores públicos e privados somaram 19,1 bilhões de dólares para a luta contra a doença. Seriam necessários 26,2 bilhões para alcançar em 2020 a meta fixada pela ONU: que 90% das pessoas com HIV conheçam a sua condição, que 90% das pessoas diagnosticadas com o vírus tenham acesso a tratamento e que 90% das pessoas que recebem a terapia tenham supressão viral.

“Maximizamos o uso de cada dólar disponível, mas continuam faltando sete bilhões para nós”, disse na quinta-feira Michel Sidibé, diretor-executivo da Unaids. 


Comments are closed.