As expressões do ator Andy Serkis e de seu personagem, César, em ‘Planeta dos Macacos: A Guerra’

“The girl from Ipanema goeesss walkiiiing”, uma voz fina e ardida, que pronuncia ésses como se fossem xis, declama “Garota de Ipanema” em inglês. O público reunido no auditório em São Paulo vai à loucura. O orador é Gollum, a criatura patética que se arrasta por cavernas de “O Senhor dos Anéis”.

Ou quase: é o ator inglês Andy Serkis, 53, que ficou famoso por encarnar Gollum e veio ao país divulgar “Planeta dos Macacos: A Guerra”, que estreia nesta quinta (3) em grande circuito.

Ele vive César, que entrou na saga dois filmes atrás como um chimpanzé espertalhão e que, no novo longa –que retrata mais um arranca-rabo entre humanos e seus ancestrais–, já é praticamente um humano hirsuto liderando um exército símio.

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Por trás do focinho computadorizado, está a interpretação de Serkis, uma espécie de Meryl Streep dos personagens animados. Ele é o maior expoente da “motion captured acting”.

A técnica consiste em atuar com sensores colados em seu rosto e num macacão de lycra, que captam cada movimento e expressão. O registro da atuação é jogado em um computador e a partir dele vertido na figura que aparece na tela. Foi assim também que ele deu vida a personagens de “Os Vingadores”, “Tintin” e “Star Wars”.

O ator ganhou tanto poder na sua função que tem até carta branca para mudar o roteiro. Ele conta que, no texto de “Planeta”, as falas eram escritas no roteiro como se fossem ser ditas por um humano. Mas nem sempre “cabiam na boca”.

“A gente tinha que encurtar as frases, para se aproximar mais da linguagem do macaco”, diz ele, que tomou a voz de Gollum emprestada ao barulho que seu gato fazia ao cuspir bolas de pelo.

Depois de “interpretar” King Kong no filme de 2005, talvez já estivesse acostumado a macaquices. Mas não.

“O Kong é um macaco. O César é um macaco com inteligência aumentada, com aflições mais humanas.”

Para dar vida a César, ele se aprofundou na trajetória de Oliver, um chimpanzé que viveu no década de 1970 e foi apontado por alguns como o ele perdido entre humanidade e natureza selvagem.

Serkis também usou anilhas presas nas mãos e nos pés, para dotar seu andar de um suingue bestial.

RECONHECIMENTO

Na realidade, o ator é baixinho e caminha ereto. É duro reconhecê-lo sem um verniz de computação gráfica cobrindo seu rosto e corpo. Camisa azul engomada, cabelo, já meio branco, penteado para trás com pomada, unhas feitas e cara de estrela de Hollywood que se sustenta no cachê, já milionário.

Só falta o Oscar reconhecer seu trabalho. Mais de uma vez, Serkis disse ser hora de um ator de seu ramo da arte receber a indicação.

“É preciso que compreendam o que é computação gráfica. Não é só uma referência para artistas desenharem com o computador por cima. O ator e o diretor têm tanta importância quanto num filme de ‘live action’ [em que os personagens são de carne e osso].”

Mas a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas ainda não entendeu nada do seu ofício, defende. “Eles são cegos, não sabem o que é a tecnologia. Acham que é uma coisa mágica.”

Enquanto não é reconhecido pela maior láurea da indústria cinematográfica, continua trabalhando.

Serkis diz que toparia, inclusive, fazer outro filme da saga dos primatas falantes.

“Eu amo a metáfora de macacos representando questões humanas. É raro ter filmes comerciais com essa profundidade”, conta.

E não só por gostar da ideia por trás da saga, mas porque, diz, o trabalho com o diretor Matt Reeves foi um dos melhores da vida.

“Normalmente, nos blockbusters não temos tempo para ensaios. É pegar a câmera e sair filmando”, explica.

“Mas, nesta saga, a gente ensaia cada cena até estar em cima, a câmera só entra depois que está tudo pronto.”

Ele admite que muitos dos “sins” que diz a filmes comerciais são para ter dinheiro para tocar seus próprios projetos como diretor.

Ele dirige “Jungle Book”, releitura da história do menino-lobo Mogli, do livro de Rudyard Kipling, em fase de pós-produção e prevista para o ano que vem.

“Meu filme é muito mais sombrio do que a versão da Disney. É para crianças de 10 anos, não de 5”, ri. Serkis, que no filme também faz o urso Baloo, escalou nomões como Christian Bale, Benedict Cumberbatch e Cate Blanchett para interpretar outros animais de computação gráfica no longa.

Questionado se deu a esse pedaço do panteão hollywoodiano algum conselho sobre como atuar para depois ser coberto por animação, ele responde: “Vou te contar um segredo. O maior segredo é: não tem segredo. É dar vida a um personagem, só isso.”

Dois segundos de silêncio depois, ele termina: “Tem uma coisa, sim. O maior exercício é se livrar da vaidade, porque você não vê seu rosto na tela.” Algo que, para ele, diz, não foi difícil. “Prefiro me esconder dentro de um personagem mesmo.”


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