Fábio Luis Lula da Silva, filho do ex-presidente Lula – Greg Salibian / Folhapress/ Agência O Globo

Ex-diretor do grupo empresarial de Jonas Suassuna, que é sócio de um dos filhos do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e um dos proprietários do sítio de Atibaia (SP) atribuído ao petista, Marco Aurélio Vitale afirmou, ao jornal “Folha de S.Paulo”, que empresa de Suassuna foi usada como fachada para receber recursos da Oi. Vitale disse que os recursos eram direcionados a Fábio Luís Lula da Silva, filho de Lula, e seus sócios. O ex-diretor declarou ainda que os repasses eram justificados por meio de contratos “sem lógica comercial”. Vitale confirmou ao GLOBO o teor da entrevista concedida à “Folha”.

De acordo com a Polícia Federal, as empresas receberam R$ 66,4 milhões da Oi entre 2004 e 2016. À “Folha de S.Paulo”, os advogados de Lula e da Oi negaram a prática de atos ilícitos. Já Fábio Luís não se manifestou.

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Vitale contou que Grupo Gol, de Jonas Suassuna, conseguiu um tratamento que não existe dentro da Oi. O único objetivo do contrato entre ambos era o repasse de recursos da empresa de telefonia para as firmas de Suassuna. O Grupo Gol atua nas áreas editorial e de tecnologia e não mantém nenhuma relação com a companhia aérea de mesmo nome.

Jonas Suassuna é dono de metade do sítio em Atibaia (SP), que o Ministério Público Federal diz ser de Lula, e tornou-se sócio de Fábio Luís e Kalil Bittar (irmão de Fernando Bittar, dono da outra metade do sítio) e da Oi na Gamecorp em 2007. Fábio Luís é sócio de empresas do Grupo Gol.

Questionado sobre qual era o motivo dos contratos do grupo de Suassuna com a Oi, Vitale disse que “muitos dizem que seria uma contrapartida pela mudança da lei da telecomunicação para permitir a compra da Brasil Telecom”:

— Nunca ouvi falarem disso. Esse assunto não era tratado dessa maneira. Mas Jonas e suas empresas foram utilizadas, na minha opinião, como uma fachada necessária para que o Fábio e Kalil realizassem seus negócios através da ligação familiar. Nesse movimento, os negócios não eram o mais importante. O importante era a entrada de dinheiro.

O ex-diretor afirma que a receita do grupo era da Oi e que diretores sabiam da existência de contratos e receitas milionárias:

— Mas nunca ficou claro quanto e pelo quê a Oi pagava.

Na entrevista, Vitale afirma que Suassuna não falava sobre os contratos.

— O modelo de gestão sempre foi muito centralizado. Qualquer assunto era tratado de forma fechada com Fábio, Kalil e Fernando Bittar. Esporadicamente se encontravam com Lula em São Paulo.

Questionado se o nome de Lula era usado, Vitale afirma que existia na Oi “uma noção clara de que a Gol só estava lá por causa do então presidente”:

— No caso da Oi, não se falava o nome do ex-presidente porque eles queriam buscar outros negócios e existia dentro da Oi uma noção clara de que a Gol só estava lá por causa do então presidente. As pessoas da Oi não se sentiam à vontade de falar sobre isso. Mas, em almoços que Jonas fazia com empresários, ele sempre se posicionava como sócio do filho do presidente, amigo do presidente.

De acordo com o ex-diretor, Lula não frequentava a empresa. Vitale disse ter visto o ex-presidente apenas uma vez, quando já ele tinha deixado o Palácio do Planalto, porque Suassuna queria mostrar as instalações da companhia. Sobre o sítio de Atibaia, o ex-diretor disse que sabia da propriedade, mas ela “era do Lula”:

— Nunca foi dito que era do Jonas. Ele nunca tratou sendo como dele, sempre tratou como sítio do Lula. (Após a divulgação do caso), ele fala, em almoço na empresa, que tinha um sítio ao lado, que comprou como investimento.

Vitale conheceu Suassuna entre 1997 e 1998, quando era gerente de marketing da “Folha de S.Paulo”. Em 2009, foi chamado pelo empresário para trabalhar com ele. A sociedade entre Suassuna e o filho de Lula, segundo ele, sempre foi colocada como lícita “que não traria benefícios diretos para o Jonas”:

— Exceto o fato de ser sócio do filho do presidente, o que te dá uma visibilidade natural.

INTIMADO PELA RECEITA FEDERAL

Marco Aurélio Vitale da Costa confirmou,neste sábado, ao GLOBO, o teor da entrevista concedida à “Folha”. O ex-diretor, que atualmente trabalha como fotógrafo e é presidente da ONG “Instituto de Percepções de Responsabilidade Social”, disse ter sido intimado a prestar esclarecimentos à Receita Federal há cerca de um ano, no Rio de Janeiro, numa investigação sobre a empresa de Suassuna.

Naquele depoimento, ele afirmou ter relatado episódios e apresentado documentos que comprovariam que o Grupo Gol teria sido usado como fachada para o repasse de dinheiro da operadora Oi para o filho de Lula. Seu último contato que teve com Suassuna, contou ele, foi naquela época, quando recebeu a intimação da Receita.

— Eu disse ao advogado dele (Suassuna) que tinha sido intimado pela Receita e iria dizer tudo que sabia. Depois disso, nunca mais falei com ninguém — contou ele ao GLOBO.

Vitale explicou que foi chamado pela Receita assim como outros executivos que trabalharam ou continuam na Gol, e negou que tenha chantageado Suassuna, como insinuou à Folha um advogado do empresário.

— Nunca pedi nada a eles. Isso é absurdo. Eu não estou envolvido em nenhum desses contratos suspeitos. Quando entrei na empresa, eles já haviam sido assinados. Mas sei de muita coisa, como muita gente lá dentro sabe. Só quero compartilhar a verdade.

OUTRO LADO

Ao jornal “Folha de S.Paulo”, Suassuna negou ter sido beneficiado pela Oi por ser sócio do filho de Lula:

— Tudo isso já passou pelo escrutínio da Receita Federal. Já prestei todas as contas e não fui multado. Levei muito tempo para chegar aonde cheguei. Tenho currículo, respeitabilidade e um carimbão da Polícia Federal e do Ministério Público. Em nenhuma delação eu apareci.

O empresário negou ainda ter usado o nome do ex-presidente para fechar negócios. Sobre o sítio em Atibaia, disse ter comprado um dos terrenos a pedido de Jacó Bittar, pai de Fernando e Kalil Bittar e amigo do ex-presidente.

— Ele (Jacó) me disse: “Comprei um sítio, mas o cara só vende dois. O presidente Lula vai sair da Presidência e quero que ele fiquei comigo, porque ele é meu amigo. Quero fazer isso para ele”. Eu tinha R$ 1 milhão. Tinha muito mais. Fui lá e comprei. Com meu dinheiro eu compro o que eu quise — afirmou Suassuna.

A defesa de Lula afirmou ao jornal que os fatos relacionados à Oi e às empresas de Lulinha já foram objeto de inquéritos e todos eles foram arquivados porque não foi identificada a prática de qualquer ato ilícito. Sobre o sítio, o ex-presidente alega que foi adquirido pelas pessoas que constam na matrícula do imóvel como proprietárias, que aplicaram recursos próprios e com origem demonstrada.

A Oi divulgou nota em que diz que as empresas mencionadas são reconhecidas no mercado e fornecedoras de grandes companhias que operam no país.

“Os serviços contratados e citados na reportagem seguem parâmetros comerciais. A Oi já prestou esclarecimentos às autoridades competentes no passado e não tem mais o que comentar ou acrescentar às informações apresentadas”, diz a nota.

Lulinha, Kalil e Fernando Bittar não se pronunciaram na reportagem.

Em nota, o Grupo Gol classificou a entrevista de Marco Aurélio Vitale como “mentirosa e recheadas de suposições não documentada”. Segundo o grupo, os contratos com a Oi são lícitios e “em valores absolutamente compatíveis com o mercado”. Afirmou ainda que Jonas Suassuna e suas empresas foram alvo de 78 investigações da Receita, “o entanto, nada foi provado contra ele que dê lastro a tais acusações”. Disse também que não há nenhuma denúncia ou processo contra o empresário. Ainda de acordo com a nota, o grupo afirmou que já toma “medidas cabíveis” para interpelar Vitale na Justiça.


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