Enquanto a tia Marlene Oliveira contava à reportagem de O TEMPO, nesta quinta-feira (30), que a família não sabia como conseguiria recuperar o que foi perdido com a chuva em Caeté, na região metropolitana de Belo Horizonte, nessa quarta (29), a pequena Yasmin Almeida de Sousa, de 10 anos, chegou de mansinho com a mochila rosa nas mãos dizendo que estava tudo molhado. De dentro da bolsa, ela tirava livros e cadernos totalmente encharcados e colocava no chão, que ainda tinha um pouco de água que invadiu a casa, no bairro São Geraldo. Enquanto mostrava os materiais escolares ao fotógrafo Alex de Jesus, ela demonstrava preocupação de como terminaria o ano letivo. Vai conversar com a professora, e espera que ela entenda.

Aluna do 4º ano, Yasmim levou um susto ao perceber que os papéis estavam dissolvendo. “Eu fiquei desesperada, quero terminar meus estudos. Eu falei com a minha avó: ‘Não tem jeito, vó. Infelizmente, vai ter que deixar (molhar). Não vai dá para estudar”, lembrou.

 

FOTO: Alex de Jesus / O Tempo
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Cidades – Menina mostra caderno de desenho que também ficou encharcado Fotos: Alex de Jesus/O Tempo 30/11/2017
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Yasmin vive com a avó há cinco anos, depois que perdeu a mãe, vítima de infarto. Os outros cinco irmãos da criança moram em cidades diferentes. Talvez daí venha o apego com a idosa de 86 anos, que divide o quarto com a garota e durante a chuva precisou da ajuda dos filhos para se abrigar no banheiro, único local que tinha laje – os outros cômodos eram com telhas de amianto, que quebraram.

“Assim que caiu a primeira telha, eu falei com a minha avó para a gente esconder debaixo da cama porque eu sou pequeninha e o vento estava forte, mas ela ficou com medo. Eu pensei assim: minha vó não aguenta correr, então vou ficar com ela porque, se for para morrer, vamos morrer as duas juntas porque eu gosto dela demais”, disse a menina.

Com pouca idade, a menina já pensa no futuro: quer virar médica. No caderno separado para os desenhos feitos em casa, também ficou molhado, tem uma bonequinha com um jaleco, aparentando ser uma enfermeira.

No lote em que Yasmin vive moram três famílias, totalizando 20 pessoas, que, assim como ela, também perderam roupas, colchões, eletrodomésticos e cobertores.

FOTO: Alex de Jesus / O Tempo
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Cidades – Um dos colchões da família foi para fora da casa. Fotos: Alex de Jesus/O Tempo 30/11/2017

No meio das telhas quebradas da sala estava um urso e um coração de pelúcia encharcados. Perguntada se outros brinquedos tinham sido molhados, a resposta foi imediata: “Não tenho muitos brinquedos. Só mais uma boneca”.

Diante do rastro de destruição que a chuva causou, a garota, que a maior parte do tempo ficou com a cabeça baixa focada nos materiais escolares, se apegou à fé para tentar superar, após a perda da mãe, mais um obstáculo. “O importante é a minha família unida. Agora é colocar nas mãos de Deus”, finalizou.


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