A vida do centenário Joel Pereira Gonçalves, mais conhecido como seu Joel, que nasceu em 8 de dezembro de 1916, confunde-se com a história de Belo Horizonte, que completa 120 anos nesta terça-feira (12). Depois de viver durante 99 anos pelas ruas da capital, o idoso, que nasceu na capital mineira, acumula uma série de recordações e se lembra com precisão do desenvolvimento da cidade. Ele afirma que assistiu de perto ao surgimento de alguns dos principais pontos da cidade, hoje uma metrópole.

O centenário conta que, a partir das ruas, conseguiu captar muitas histórias vividas em Belo Horizonte. Apesar de estar contente com as festividades dos 120 anos da cidade, seu Joel se ressente de não ter conquistado o que almejava na vida. Ele completou o 101º aniversário há três dias e ainda vive em condições precárias, embora já não more mais nas ruas do município.

Atualmente, Joel habita num minúsculo quarto da pensão Santa Rita, fixada no coração da região hospitalar da capital mineira. O espaço do aposento é dividido entre um pequeno banheiro e os CDs que coleciona, em especial os da cantora sertaneja Roberta Miranda.

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Na parede oposta à estante, onde guarda, com carinho, uma televisão e um rádio, o idoso assiste à goteira que insiste em lhe fazer companhia. Já na saída, um recipiente de arnica chama atenção sobre a cômoda. Seu Joel garante: nunca pisou em um hospital nem ingeriu remédio.

Recordações. O centenário ressalta que, na época em que nasceu, Belo Horizonte não tinha muita coisa. “Existiam apenas casas velhas, feitas de tábua e de madeira”, conta ele, que, das ruas, observou o crescimento da cidade acontecer bem aos poucos.

Entre as recordações de seu Joel, que nasceu na área onde se localiza o viaduto Santa Tereza, na região Leste de Belo Horizonte, está uma história do Parque Municipal Américo Renné Giannetti, na região Centro-Sul. O idoso conta que, antigamente, o local era uma residência.

“O engenheiro que desenhou Belo Horizonte morava lá, e, ao lado do local, existia um posto de gasolina, onde eu tomava banho”, relata o centenário.

Ele considera que o crescimento que houve na cidade promoveu mudanças positivas e outras nem tanto, como ele detalha. “Melhorou muito. Mudaram os pontos de ônibus, mudaram as avenidas. Vias que eram ‘mão’ se transformaram em ‘contramão’. As que eram ‘contramão’ viraram ‘mão’. Tudo ao contrário”, detalha.

Diversão. O idoso se recorda também de que na capital mineira havia muitos clubes de dança antigamente. Ele frisa, no entanto, que não frequentava esses locais por falta de condições. “Eu andava todo sujo. Como eu poderia entrar nesses lugares?”, lamenta o idoso, que, apesar das dificuldades que vivenciou e ainda enfrenta, aprendeu a se divertir a seu modo.

“Eu brincava na rua com bola de meia. Enchia de molambo, de roupa velha e saía brincando no asfalto. Em tempo de quadrilhas, que aconteciam lá na praça da Estação, eu entrava no meio do povo e dançava entre as pessoas”, relembra, com alegria, seu Joel.

* Sob a supervisão da jornalista Daniele Marzano

 

Dona Lêda: um século de amor pela cidade que a acolheu 

Aos 102 anos, Lêda Gontijo também guarda grandes memórias da cidade. Ela nasceu em Juiz de Fora, na Zona da Mata, mas mudou-se para BH ainda na adolescência. Após estudar na primeira turma da Escola Guignard, na época localizada no Parque Municipal Américo Renné Giannetti, a mineira teve suas obras reconhecidas internacionalmente.

Tia do cartunista Ziraldo, criador do personagem Menino Maluquinho, Lêda garante ter sido a primeira mulher a dirigir na capital.

A artista plástica conta que os clubes e os cassinos garantiram seu divertimento por muito tempo.

Hoje, dona Lêda valoriza os avanços. “Na minha época, a mulher não podia sair sozinha na rua. Eu ia ao cinema com meu pai ou meu irmão”, diz. Ela se recorda, aos risos, dos namoros da época. “Íamos para a praça da Liberdade e andávamos sem pegar nas mãos”, conta.

Programação

Praça da Estação. A praça da Estação, na região Centro-Sul de BH, foi o lugar escolhido para receber os maiores eventos em comemorações dos 120 anos da capital. Palco do Festival Acontece, o espaço recebe na terça-feira, dia do aniversário da cidade, a banda Skank, que vai comandar a festa a partir das 20h30. Antes, às 19h, os belo-horizontinos poderão ouvir outras atrações, como Bala da Palavra, BNegão e Pereira da Viola. A entrada é grátis.

Praça de Iemanjá. Símbolo das raízes das culturas africanas na cidade, a praça de Iemanjá, na região da Pampulha, terá comemorações também. O Monumento a Iemanjá foi restaurado, e o espaço será reaberto para o público com festividades nesta terça, a partir das 19h. A praça fica na avenida Otacílio Negrão de Lima, 260, no bairro São Luiz. A entrada também é gratuita.

Festividade. Veja a programação completa do aniversário da cidade em www.pbh.gov.br.


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