Mesmo os críticos dos projetos comemorativos de efemérides hão de concordar que a marca de 50 anos de carreira de um artista faz jus a uma celebração. No caso de um grupo vocal que resistiu a todos os modismos da música brasileira, e que tem na bagagem versões fundamentais da obra de Chico Buarque, Vinicius de Moraes e Aldir Blanc, um bom registro se torna algo incontornável. O Sonho, a Vida, a Roda Viva! (MP,B Discos/ Som Livre), CD e DVD ao vivo do MPB4, traz inéditas e seus clássicos dos anos 1960 em diante e terá shows de lançamento no Rio e em São Paulo em janeiro.

Com os originais Miltinho (voz, violão e direção musical) e Aquiles Reis (voz), Dalmo Medeiros (voz e viola), no grupo desde 2004, com a saída de Ruy Faria, e Paulo Malaguti Pauleira (voz, teclado, direção musical), que ingressou quando da morte de Magro Waghabi (1943-2012), o trabalho mescla os arranjos vocais tradicionais, que eram feitos por Magro, e novos, divididos entre Pauleira e Miltinho.

O resultado vocal não se alterou, embora as divisões tenham ganhado novas dinâmicas, como lembra Aquiles. “Para a minha surpresa, a entrada deles não mudou em nada a sonoridade do MPB4 Dalmo e Pauleira (ambos ex-Céu da Boca) são vocalistas experimentados”, ele analisa. “O que se alterou foi a concepção dos arranjos do Pauleira, que foi fundo em detalhes. Achei muito saudável essa renovação sem mudar o timbre, e de certa forma me parece que é como se o próprio Magro estivesse participando ainda.”

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É a Magro que o novo trabalho é dedicado, e ele é lembrado em fotos exibidas nas faixas O Navegante (Sidney Miller), com sua voz adicionada, e Canção da América (Milton Nascimento/Fernando Brant). “Sem ele não existiria o MPB4. Vamos sempre homenagear o Magro, por meio dos belos arranjos que ele fez para a gente”, acarinha Dalmo neste momento do DVD. “Há quatro anos fui convidado para substituir o insubstituível Magro. Ele está aqui ouvindo a gente e conferindo, espero que esteja à sua altura”, diz Pauleira na gravação.

Aquiles lembrou os últimos dias do amigo, levado precocemente por um câncer (tinha 68 anos), e de como se sentia desacorçoado depois de vê-lo no hospital; Miltinho rememorou os dias na antiga Escola Fluminense de Engenharia, em Niterói, onde se conheceram. Era 1963 quando o Quarteto do Centro Popular de Cultura (CPC) da União Nacional dos Estudantes (UNE) virou MPB4, com Ruy na primeira voz, Magro na segunda e direção musical, Aquiles na terceira e Miltinho na quarta. Era inaugurada a sigla que substituiria a expressão Música Popular Brasileira – as iniciais até então não eram usadas por ninguém.

A partida do amigo, precocemente levado pelo câncer, chegou a levar os remanescentes a pensar em extinguir o grupo de vez. “Concluímos que o melhor seria prosseguir, perpetuar a obra do MPB4 e os arranjos dele. Vimos que cada show que fizéssemos seria uma homenagem ao Magro”, conta Miltinho, que musicou uma letra que Paulo Cesar Pinheiro fez sob a dor do dia seguinte à perda, Amigo do Peito.

Filmado há um ano no teatro Sesc Ginástico, no Rio, o show teve repertório escolhido por Helton Altman, diretor artístico, e inclui as inéditas Desossado (João Bosco e Francisco Bosco), Ateu É Tu (Celso Viáfora/Rafael Altério), Milagres (Breno Ruiz e Paulo César Pinheiro), Brasileia (Guinga/Thiago Amud), A Ilha (Kleiton Ramil e Kledir Ramil) e A Voz na Distância (Paulo Malaguti Pauleira).

São canções que renovam uma coletânea de sucessos, como Roda Viva – que abre o DVD, com o quarteto no escuro -, Partido Alto, Cálice (Chico Buarque, a última, com Gilberto Gil), Cicatrizes (Paulo Cesar Pinheiro/Miltinho) e Oração ao Tempo (Caetano Veloso). Kleiton & Kledir participam de Vira Virou.

No bis se sucedem Olê, Olá (Chico Buarque), Pois É, pra Quê? (Sidney Miller) e Por Quem Merece o Amor (Silvio Rodríguez Domínguez, vertido por Miltinho), entre outros registros que traduzem o MPB4. Os shows já começaram, e seguem por janeiro: dia 18 o grupo canta no Teatro Net de São Paulo. Dia 20, com outro repertório, no Blue Note do Rio, e dias 26, 27 e 28, no Teatro da UFF, em Niterói.

“Se não cantarmos a nossa história, ninguém vai cantar. Em 50 anos, nunca paramos, mesmo quando as gravadoras não queriam mais gravações de inéditas, só projetos especiais”, diz Miltinho. “É muito difícil chegar aos 50 anos, ainda mais sendo um quarteto”, pontua Aquiles. “Quando começamos, a música que fazemos estava no horário nobre na TV, havia os festivais; hoje o interesse é outro”, acrescenta.


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