Guilherme Lourenço tinha 8 anos, em 25 de maio de 1999, quando a mãe dele saiu para trabalhar e prometeu voltar com moedinhas de chocolate. Seria a “surpresinha” do dia, e ele escolheu o que queria. Até hoje, a bancária Elizabete da Silva Nogueira, com 36 anos na época, não voltou para casa, e ninguém sabe o paradeiro dela. Assim como a família de Elizabete, parentes de oito mulheres que sumiram ou foram encontradas mortas entre 1999 e 2000, nas imediações do Shopping Del Rey, no bairro Caiçara, na região Noroeste de Belo Horizonte, ainda não tiveram uma resposta para o que aconteceu.

Na época, ao menos 17 desaparecimentos ou mortes de mulheres foram atribuídos a um suposto “maníaco do shopping”, que também teria agido em outros bairros da região Noroeste, como Califórnia, Santa Maria e Camargos, e em locais vizinhos, como Água Branca e Eldorado, em Contagem, na região metropolitana de Belo Horizonte.

Para quatro famílias, o mistério atingiu a maioridade ao completar 18 anos, um eterno luto para quem já perdeu a esperança de um dia reencontrar filhas ou mães. Em outros casos, os corpos das vítimas foram localizados, mas o que aconteceu com ela ainda é uma interrogação, inclusive para a polícia.

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“Esquecer a gente nunca esquece. Paira essa dúvida. Já são 18 anos, e eu tentei fazer o luto de minha irmã e não consigo”, desabafa a dona de casa Wanda Nogueira, 61, irmã de Elizabete.

A bancária foi vista pela última vez saindo da agência onde trabalhava, localizada no Shopping Del Rey. Ela deixou três filhos na época: Guilherme e um casal de gêmeos, Fernanda e Gabriel, com 1 ano e 3 meses. Hoje, o mais velho tem 27 anos, e os gêmeos, 19. Eles preferem não comentar o caso e evitam até mesmo a exposição de fotos da mãe na casa onde moram com a tia Wanda, que passaram a chamar de mãe.

“Ainda hoje é muito doloroso para o mais velho. É difícil imaginar o sofrimento de uma criança esperando pela mãe, pedindo a Deus para trazê-la de volta. Hoje, ele se diz ateu e costuma falar: ‘Como vou acreditar em um Deus a quem pedi todos os dias para trazer minha mãe de volta, e ela não voltou?’. É muito sofrimento para todo mundo”, lamenta Wanda.

Registros. A primeira vítima do caso a desaparecer foi a pedagoga Selma Beatriz Silva, em 26 de fevereiro de 1999, aos 33 anos. “A polícia colocou uma pedra em cima desse mistério”, reclama a irmã, a funcionária pública Geni Filha, 59.

O paradeiro de Carla Emanuelle da Silva, que tinha 11 anos em 5 de março de 1999, quando sumiu, também é incerto. Ela morava com a avó, nas proximidades do shopping, aonde foi para comprar um pacote de macarrão. Desde então, nunca mais foi vista.

Dia das Mães ficou marcado

Ninguém foi para a cadeia até hoje. Ficou tudo por isso mesmo”, lamenta a aposentada Maria Madalena da Silva, 75, que não consegue esquecer o Dias das Mães de 2000, data em que a filha dela, Cíntia Rosa de Castro Silva, 23, desapareceu.

O corpo da vítima foi encontrado 53 dias depois, na mata da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em frente ao Shopping Del Rey. “É uma dor que nunca vai acabar. Fica a esperança, a saudade”, diz a mãe da vítima.

Wanda Nogueira tenta amenizar a dor não vendo as fotos que tinha da irmã Elizabete e, por isso, enviou todas para a casa de parentes.


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