Motorista é abordado na Pampulha e forçado a levar ladrões até em casa

A família de um motorista de aplicativo de transporte de passageiros, incluindo uma criança de 8 anos e uma adolescente de 16,  viveu 40 minutos de terror em poder de três assaltantes, na noite de quinta-feira (5). O homem foi sequestrado pelo trio no bairro Aeroporto, na região da Pampulha, e acabou forçado a levá-los até a própria casa, a cerca de 25 km dali, no bairro Vale do Jatobá, na região do Barreiro.

Por volta das 21h de quinta-feira, o motorista, de 35 anos, teve seu veículo HB20 interceptado por um Siena preto com quatro assaltantes armados, quando acabava de deixar um passageiro no bairro Aeroporto, sendo feito refém. Era a última corrida dele, mas o início de um pesadelo.

A vítima foi forçada a levar três dos quatro assaltantes para a casa dele, no bairro Vale do Jatobá, região do Barreiro, onde a mulher e as duas filhas, de 8 e 16 anos, foram torturadas psicologicamente. Depois do assalto, as vítimas foram deixadas amarradas e trancadas em um quarto. Na fuga, houve perseguição policial e três bandidos foram baleados e presos. O quarto conseguiu escapar pulando de um barranco.

O motorista conta que tinha acabado de deixar o passageiro em casa quando foi interceptado pelo carro dos assaltantes. “O Siena fechou o meu carro e três deles já desceram do carro com arma em punho, me puxaram para fora e me mandaram para o banco de trás. Um deles assumiu a direção. Um outro sentou no banco de passageiro e o terceiro ficou no banco de trás, com a arma na minha cabeça o tempo todo”, conta a vítima.

Os ladrões pediram ao motorista para colocar o endereço dele no GPS, com a intenção de assaltar a residência. “De tão nervoso, coloquei o endereço do meu pai. Certo momento, eu lembrei que não podia ir para a casa do meu pai, que é idoso tem doença de Alzheimer. Então, pedi para que fossem para a minha casa. Até propus passar no banco para sacar dinheiro do cheque especial e morrer o assunto, mas eles quiseram ir para minha casa. Disseram que eu estava querendo fazer eles de bobos e que iriam estourar os meus miolos”, comentou o motorista, que foi mantido o tempo todo com a cabeça abaixada.

Chegando em casa, os ladrões estacionaram o carro na garagem e entraram na sala, onde estavam a mulher e as filhas da vítima. “Ameaçaram elas com a arma. Minha mulher até achou que fosse uma brincadeira e começou a rir. Eles falaram que era sério e ameaçaram estourar os miolos dela”, conta o motorista.

Os ladrões recolheram tudo de valor na casa, como aparelhos de TV, celulares, joias, roupas, calçados, enchendo várias malas. “No final da história toda, eles ainda quiseram me levar para o banco para sacar dinheiro. Eu falei que estava negativo no banco e um deles convenceu os comparsas a irem embora”, disse.

A mulher pediu aos ladrões para não levar o celular da filha mais velha, que ela tinha acabado de comprar, e que deixassem pelo menos uma roupa para ela ir trabalhar no dia seguinte. Os ladrões riram e um deles respondeu: “Vocês não têm dinheiro não, né? Mas, têm muito material de escola aqui. Isso mesmo, estudam que vocês vão conseguir recuperar tudo de novo. Estou fazendo isso aqui (assaltando) porque isso aqui é meu trabalho. Tenho filho para cuidar, tenho leite para comprar”, teria dito, segundo a mulher da vítima, uma vendedora de 32 anos. “Minha filha de 16 anos ficou sem roupa até para ir trabalhar”, contou a mãe.

Os ladrões amarraram a família e deixaram todosa sobre uma cama, trancados no quarto. “Só não amarraram minha menina menor porque a minha esposa pediu”, disse o motorista. “Coloquei a cabeça para fora da janela e chamei a vizinha e ela acionou a polícia”, acrescentou. A PM arrombou o portão para libertar as vítimas.

O carro do motorista tinha rastreador. Como os ladrões haviam levado o celular dele, um PM baixou o aplicativo no aparelho dele, com a senha da vítima, e rastrearam o veículo. “Foi o pior momento da minha vida. Terrível. Não desejo a ninguém. Não quero passar por isso nunca mais”, comentou a vítima, agradecendo a Deus por estarem vivos e lamentando o prejuízo. O veículo dele foi atingido por vários tiros, na perseguição policial, e ele não tem como trabalhar. Os ladrões também se envolveram numa colisão. “O tempo todo, eles ameaçaram a gente de morte, falando palavras de baixo calão, falando ‘cala a boca, puta, prostituta’, na frente das nossas filhas. Foi uma tortura”, lamentou o pai.

 

Pesadelo

A mulher do motorista também não consegue esquecer os momentos de terror. “Achei que era brincadeira, que o meu marido estava chegando em casa com o filho dele. De repente, três bandidos armados, xingando. Ameaçaram levar as minhas filhas, depois levar o meu marido para sacar dinheiro no banco. Quiseram levar meu marido para a casa do pai dele, que já é idoso. Foram muito agressivos”, chorou a vendedora.

Os ladrões ainda foram “cara de pau”, segundo ela. “Abriram a geladeira, tomaram suco. Pegaram as roupas da minha filha, sapatos, tudo que eles viram pela frente. Rasgaram as blusas das meninas para amarrar a gente, usaram carregador de celular”, comentou.

 

Perigosos

De acordo com o tenente do Tático Móvel do 13º Batalhão da PM, Antônio Gustavo Diniz Matoso, os três assaltantes presos têm uma vasta ficha criminal, com vários crimes de roubo, latrocínio (roubo seguido de morte) e homicídio. Um revólver calibre 38 e outro 32 foram apreendidos com eles. O quarto homem que fugiu também estaria armado.

Durante a perseguição policial, eles tentaram atropelar uma policial que tentou interceptar o carro, mas ela disparou tiros e eles fugiram. “Eles fizeram uma tortura psicológica com os todos os membros da família”, lamenta o tenente.

Segundo o militar, a polícia vai investigar se os ladrões têm participação em outro crime na madrugada anterior, quando quatro bandidos fizeram um “tour” com três reféns, entre eles uma adolescente e um motorista de aplicativo, e percorreram seis municípios da região metropolitana com as vítimas. Esse crime começou em Confins e só parou em Lagoa Santa.

Os três ladrões baleados foram socorridos no Hospital Risoleta Neves, onde permaneceram internados  sob escolta policial. O estado mais grave era do jovem de 21 anos, baleado no abdome. Os outros dois, de 20 e 29 anos, que foram atingidos nas mãos, tiveram lesões leves. “A prisão deles é um alívio para a sociedade. Esperamos que permaneçam presos. São bandidos que estavam atormentando a sociedade”, disse o tenente.

 

Minientrevista

Como fica a cabeça de vocês depois dessa tortura psicológica?

Coitada da minha filha menor. De nós quatro, ela ficou mais assustada. Ela chorava e eu falava: ‘não chora, meu amor’. Em outro momento, ela é quem me mandava parar de chorar e dizia: ‘Mamãe, para de chorar. Eles vão atirar em você. Fica quieta, mamãe’.

E depois disso tudo, como ela está?

Não sei como vou fazer para tirar isso da cabeça dela. Ela acompanha isso acontecendo em todo lugar, mas acontecer com a gente é totalmente diferente.

E você, como está?

Apesar de tudo, a sensação é de alívio. Eles não fizeram nada com a gente. Quiseram fazer várias coisas com a gente, mas, graças a Deus, desistiram. O que a gente tem que fazer agora é, primeiramente, mudar da casa.

Atualizada às 13h18

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