Nove pessoas ficaram feridas na noite de terça-feira (9) depois que um ônibus caiu de uma altura de quase seis metros na trincheira do Itaú

Quase no fim de seu expediente, o motorista da linha de ônibus 7110 (Riacho das Pedras A/Betânia) Edvaldo Gonçalves Ferreira, 51, pegou passageiros na estação Eldorado, em Contagem, na região metropolitana de Belo Horizonte, e seguiu viagem. Além de conduzir o veículo, ele fazia também o papel de cobrador.

Com o ônibus em movimento, duas passageiras teriam se negado a pagar a passagem e pularam a catraca. A “evasão”, comum no sistema, gerou discussão dentro do coletivo. A 1 km da estação, o veículo despencou de uma trincheira de cerca de 6 m de altura, por onde passam cerca de 70 mil veículos por dia, sendo 7.000 no horário de pico.

O acidente ocorreu no cruzamento das avenidas Babita Camargos e General David Sarnoff, no bairro Cidade Industrial, em Contagem, na região metropolitana, por volta das 23h de terça-feira (9). Dez pessoas que estavam no coletivo ficaram feridas. O motorista teve ferimentos leves e não precisou ser hospitalizado. Nenhum outro veículo foi atingido.

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O condutor alegou que foi fechado por um carro branco, que tentou ultrapassá-lo pela direita e, por isso, perdeu a direção. Ele não soube informar o modelo ou a placa, e o veículo não foi localizado. A Transimão, responsável pela linha, reforçou a tese do trabalhador e não comentou o relato dos passageiros sobre a evasão e a discussão no coletivo. A Polícia Civil informou que está apurando o caso.

Negligência. O caminhoneiro Wanderlei Parreiras de Aguiar, 49, havia deixado o caminhão na empresa onde trabalha e voltava de ônibus para casa, no bairro Milionários, na região do Barreiro, na capital. Ele era um dos passageiros da linha 7110, que caiu da trincheira, e sofreu fratura facial e de crânio.

Para Aguiar, houve falta de atenção por parte do motorista do coletivo, como conta a mulher dele. “Ele fala o tempo todo que houve negligência, que teve uma briga dentro do ônibus, que uma passageira queria pular a roleta, e o motorista desviou a atenção para discutir com ela e perdeu o controle do ônibus”, contou a técnica de enfermagem Joana Lina de Santana Aguiar, 52.

O Hospital Municipal de Contagem informou que recebeu quatro vítimas, entre elas, Aguiar. Uma passageira de 30 anos fraturou a clavícula. Um homem de 38 anos fraturou o braço e o calcanhar direito. O quarto passageiro tem 26 anos e teve escoriações leves.

Cansaço e falta de cobrador são riscos

A dupla função assumida por motoristas de ônibus do transporte coletivo metropolitano, que além de prestar atenção no trânsito também precisam receber dinheiro, dar troco e conferir a catraca, é apontada por usuários e representantes da categoria como um dos fatores de estresse, afastamentos por problemas de saúde e acidentes.

O Departamento de Edificações e Estradas de Rodagem de Minas Gerais (Deer-MG) não informou quantas linhas operam sem o cobrador, mas explicou que isso é autorizado por norma estabelecida em 2014 e é feito em todas as linhas onde mais de 80% dos passageiros utilizam o cartão Ótimo para pagamento das passagens, entre outras regras.

O presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Transporte de Passageiros de Contagem (Sintetcon), Gerson Cesário, não apresentou números, mas alegou que os acidentes e os roubos a coletivos aumentaram depois que acabaram com a função de cobrador.

“Quando a gente tinha um cobrador, companheiro do motorista no ônibus, era raro acontecer uma coisa dessa. Hoje, se você levantar a ficha de trabalhador, são muitos afastamentos por problemas psicológicos. Ele cobra, dá troco, passa informação, tem que ficar ligado no trânsito e ainda salva o patrimônio da empresa. Entra ladrão, entra tudo. O afastamento de companheiro hoje por estresse é muito grande”, reforça Cesáreo.

Outro caso

Histórico. Em 16 de julho de 1999, no centro de Belo Horizonte, o ônibus da linha 1505 (Alto dos Pinheiros/Tupi) caiu no canal do Arrudas, deixando nove mortos e 63 feridos.


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