Alguns ônibus do Move começaram a circular sem cobrador na última semana, e os trabalhadores denunciam que a situação pode ser uma forma de pressão para que a categoria paralise e cobre o aumento da passagem negado pela Prefeitura de Belo Horizonte. O sindicato que representa as empresas de ônibus, porém, garante que essa medida é apenas neste mês de férias por causa da redução de viagens e de usuários no sistema. O movimento Sem Cobrador Não Dá, formado por funcionários do setor, também afirma que, de dezembro até agora, houve cerca de 40 demissões.

“Além de demitir, eles deram férias para mais de 300 pessoas. Isso não é normal. Se as linhas continuarem rodando sem cobrador, esses trabalhadores não vão retornar das férias, estão todos com medo de serem mandados embora”, afirmou Roberto Freitas, do movimento de trabalhadores. Para ele, tudo foi feito de caso pensado porque as empresas não conseguiram reajustar a tarifa.

Por outro lado, o Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros de Belo Horizonte (Setra-BH) respondeu, por meio de nota, que “a retirada do agente de bordo somente é realizada em linhas e em horários nos quais é legalmente permitida e nos quais a presença do agente não é necessária em razão da baixa utilização dos veículos ou da utilização de cartão BHBus por grande número de usuários”. Ainda de acordo com a entidade, somente as linhas com baixa demanda estão sem cobrador, e ele pode retornar, caso seja verificado aumento de usuários “que justifique sua presença”. Não foi informado quantos carros estão rodando sem agente de bordo.

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As empresas se amparam na Lei 10.526, de 3 de setembro de 2012, que foi aprovada à época justamente para que o Move pudesse rodar sem trocador dentro das pistas exclusivas, onde o passageiro entra pelas estações de transferência já com a passagem paga. Mas a lei abriu brecha para que o transporte público da capital possa retirar os cobradores em outras situações.

Estresse. Agora, linhas do Move que circulam fora das canaletas exclusivas, como a 51, que vai da Pampulha até a área hospitalar, estão sem o agente de bordo. O condutor do ônibus articulado precisa dirigir e cobrar a passagem de quem não tem o cartão BHBus, o que, conforme os trabalhadores, é motivo de estresse.

“Mas, nessa crise, o motorista é obrigado a trabalhar sozinho, sem o auxílio do cobrador”, apontou Freitas, esclarecendo que o profissional ganha R$ 320 a mais para fazer a função do colega.

 

Sindicato diz que quer barrar retirada de agentes de bordo

Empresas e trabalhadores do transporte público de passageiros acirraram, nos últimos meses, a briga pela função do cobrador. O Sindicato dos Trabalhadores em Transportes Rodoviários de BH (STTR-BH) afirma que já está tomando as “medidas cabíveis” para barrar a retirada do agente de bordo dos coletivos, que vem acontecendo na capital.

Em Contagem, na região metropolitana, vários ônibus estão sem trocador desde o ano passado. No dia 9 deste mês, um ônibus despencou de uma trincheira de cerca de 6 m de altura, deixando dez pessoas que estavam no coletivo feridas. Pouco antes do acidente, duas passageiras teriam se negado a pagar a passagem e pularam a catraca, gerando uma discussão envolvendo o motorista. A dupla função assumida por motoristas do transporte metropolitano, que além de prestar atenção no trânsito precisam receber a tarifa, dar troco e conferir a catraca, é apontada como um dos fatores de estresse, afastamentos e acidentes.

Na ocasião do acidente, o Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros Metropolitano (Sintram) afirmou que o fato não tinha relação com a falta de cobrador. Em nota, o sindicato afirmou que, em casos de usuários que tentem não pagar a tarifa, a orientação para o motorista é que ele tente cobrar as passagens e, se o passageiro se recusar, conduza o veículo até o posto policial mais próximo para medidas cabíveis.

Saiba mais

Previsto. A Empresa de Transportes e Trânsito de Belo Horizonte (BHTrans) reafirmou o declaração das empresas de que os veículos do Move podem circular durante as 24 horas do dia sem agentes de bordo, o mesmo que acontece com todos os veículos do sistema no horário noturno. E ressaltou que, na capital, 75% dos usuários usam o BHBus.

Consequências. O Setra-BH informou também que a medida não “gera ou gerará demissão de agentes de bordo” nem “acarreta ou acarretará prejuízo à qualidade do serviço prestado”.

Salário. A ausência do cobrador é prevista no instrumento normativo da categoria, que, conforme o Sintram, prevê um adicional de 20% sobre o salário-base daqueles motoristas que realizam a cobrança da passagem.


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