Mesmo com todo o trabalho dos órgãos judiciários, de tecnologia e policiais para enfrentar a divulgação de notícias falsas com intuito eleitoral, pesquisadores do assunto afirmam que esse problema não será superado se não houver uma ampla participação da sociedade civil. A análise é que as chamadas fake news são apenas o sintoma de um comportamento de intolerância que cria uma ambiente polarizado em que adversários políticos são tratados como um inimigo a ser derrotado.

Umas das frentes de atuação para combater esse comportamento são as agências de checagem, que trabalham fazendo a conferência de notícias que são divulgadas e, principalmente, de discursos de políticos. Para além das informações que são descaradamente inventadas e divulgadas como se fossem verdadeiras, muitas vezes dados que não correspondem à realidade, mas que são verossímeis, são apresentados por políticos em um cenário durante entrevistas.

A agência Lupa foi a primeira agência de checagem no Brasil, criada em 2015. Além de conferir a veracidade das informações que são disseminadas, a Lupa também realiza um trabalho educativo de divulgação e capacitação do trabalho de checagem pelo Brasil. A subeditora da agência, Natalia Leal, explica que o principal compromisso da Lupa é com a qualificação do debate público. Ela diz que diante da quantidade de mentiras que são divulgadas é preciso que o cidadão crie o hábito de desconfiar.

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“Há um comportamento das pessoas hoje de acreditar nas informações que me interessam, que reforçam o meu ponto de vista. Nesse cenário fica mais fácil que notícias falsas sejam compartilhadas. O trabalho que Lupa faz checando as informações vem justamente para conscientizar essas pessoas, intensificando mais informações de checagem para que o cidadão tenha esse olhar mais apurado”, diz.

Ela explica que as notícias falsas não são apenas um sintoma de uma doença que seria a polarização do debate. “Esse pensamento radical de cada lado é um problema que temos que discutir como a tecnologia pode afetar isso. Temos que discutir como as bolhas de informações estão contribuindo para criar um pensamento único em cada grupo”, analisa.

O professor da Universidade Federal do ABC Paulista (UFABC) e representante do Comitê Gestor da Internet no Brasil, Sérgio Amadeu, afirma que as fakes news acompanham um fenômeno da espetacularização da política que vem se intensificando desde 2009. “Vivemos uma momento da política do escândalo, onde tudo é exagerado, as posições são extremas e acabam se afastando do debate propositivo”, afirma.

Ele afirma que é preciso combater as opiniões sobretudo as mais radicais. “Antes de atacar as fake news, é preciso atuar contra o discurso de ódio, que leva o debate para ofensas e para posicionamentos que são prejudiciais à democracia, como discursos homofóbicos, racistas, machistas”, explica.

Reunião. Na última semana o Conselho do TSE se reuniu para enfrentar os problemas das fake news. Eles decidiram procurar as empresas gigantes de tecnologia para firmar parcerias.

Desafio é enfrentar violência argumentativa e exageros

O uso da mentira de forma viral não é uma exclusividade das redes sociais. O professor da UFABC Sérgio Amadeu afirma que já houve casos em que boatos foram espalhados dias antes das eleições, com poder de influenciar o resultado antes mesmo de existir a internet.

“Já tivemos casos de panfletos apócrifos serem distribuídos aos milhares em lugares de grande concentração de pessoas. Também é muito comum o uso de igrejas em comunidades para espalhar boatos. É claro que é problema que é potencializado pela internet, mas ele já existia antes”, explica.

Para ele, o desafio é enfrentar violência argumentativa e uso de exageros durante o debate o político. “Mas isso é um trabalho de conscientização complexo e de cultivo do pensamento democrático”, diz.

Para especialistas, é impossível acabar com o fenômeno

Para cientistas políticos e juristas não é possível banir a mentira da política. A avaliação é que o combate à disseminação das fake news deve ser focado quando há indícios de uso de que a articulação partiu de comitês eleitorais.

“Primeiro é preciso pensar que a mentira é algo que é discutida até hoje na filosofia. Quem determina o que é ou o que não é verdade? Mas para além disso, mesmo tendo um conceito pragmático de inverdades, a mentira está presente e faz parte do jogo político. A diplomacia entre grande potências é realizada com grandes omissões e muitas vezes até mentira mesmo”, afirmou o professor da Universidade Federal do ABC Paulista (UFABC), e representante do Comitê Gestor da Internet no Brasil, Sérgio Amadeu.

O advogado especialista em direito digital, Alexandre Atheniense, afirma que é muito difícil combater judicialmente o uso de mentiras de forma geral. Ele diz, porém, que se houver um foco na atuação dos comitês eleitorais é possível frear essa prática. “Eu atuei em um caso que inclusive envolvia o ex-senador Delcídio do Amaral. Durante a campanha para o governo do Mato Grosso do Sul, ele comprou sites de notícias, formatou com o mesmo design do portal G1 e passou a espalhar notícias falsas contra o seu adversário. Conseguimos que ele fosse condenado por manipulação dos meios de comunicação e ele pegou oito anos de inelegibilidade”, afirmou.

MINIENTREVISTA

Noam Chomsky
Linguista e Filósofo americano

O discurso de ódio ganha mais força na internet? Por quê?

Uma grande virtude da internet é que ela oferece oportunidades para a livre expressão e para o debate. Essa liberdade permite o discurso de ódio. É importante ter em mente que, nos Estados Unidos, os pronunciamentos de racismo, supremacia branca, misoginia e ultranacionalismo de Trump forneceram legitimação implícita para discursos e ações repulsivas e nocivas, que antes eram suprimidas e marginalizadas.

Houve um crescimento na polarização e na irracionalidade do debate político, tanto nos Estados Unidos como no Brasil. O senhor vê semelhanças nesse cenário em ambos os países?

Devemos lembrar que esse fenômeno, embora real e perigoso, não é novo. Sou velho o suficiente para lembrar vividamente o surgimento do fascismo na Europa na década de 1930. A polarização e a irracionalidade excediam em muito tudo o que vemos hoje e, é claro, eram muito mais perigosas. Felizmente, as circunstâncias atuais permitem uma ampla gama de medidas para enfrentar e superar essas tendências ameaçadoras. Vemos exemplos muito claros nos Estados Unidos. A característica mais notável do pleito de novembro de 2016 não foi a eleição de um bilionário com um financiamento enorme e apoio da mídia, mesmo que ele não fosse o favorito do establishment da direita. Foi a campanha de Bernie Sanders (que perdeu as prévias democratas para Hillary Clinton), que rompeu uma história política de mais de um século de eleições praticamente compradas.

Qual a intenção por trás da produção das fake news? Por que essas notícias falsas são tão populares?

A intenção é bastante clara: enganar, induzir ao erro e controlar. As fake news são populares entre as pessoas que — muitas vezes por bons motivos — percebem o poder estabelecido como hostil e se sentem vitimadas pelas políticas prevalecentes. Consequentemente, elas desconfiam do que vem das fontes da elite e procuram por algo que possam interpretar como favorável aos seus interesses. Novamente, o fenômeno Trump é bastante notável. Pesquisas mostram que os republicanos tendem a confiar muito mais em Trump do que na mídia tradicional.

Fonte: O TEMPO


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