“A história é antiga”, diz o frentista de um posto de combustível na avenida Bernardo Vasconcelos, no bairro Ipiranga, na região Nordeste de Belo Horizonte, referindo-se à chuva que inundou a via há oito dias. Basta andar um pouco mais para outro morador se aproximar e dizer: “A população não aguenta mais”. O histórico de inundação no local já ultrapassa anos. Só na última década, foram muitas as cenas de carros submersos, comércios alagados e pessoas em risco.

A solução para minimizar os impactos da chuva também já é conhecida: depende de obras estruturantes para a ampliação dos canais de escoamento da água. Existe até projeto para isso, mas o que mais surpreende é que não houve obra até hoje nem há previsão de início de alguma. Um problema crônico que se repete em outros pontos da cidade, como nas avenidas Cristiano Machado, Tereza Cristina e Vilarinho.

Na Bernardo Vasconcelos, o córrego Cachoeirinha foi canalizado na década de 70. Desde então, a galeria, pequena para comportar grande quantidade de água, só passa por limpeza e manutenção de rotina.

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O secretário municipal de Obras e Infraestrutura, Josué Valadão, explica que o córrego deságua no ribeirão do Onça, na altura da estação São Gabriel, que também recebe a água do córrego Engenho Nogueira e do ribeirão Pampulha. O resultado é visto a cada temporal: as avenidas Cristiano Machado e Bernardo Vasconcelos viram rios entre os bairros Palmares, Santa Cruz, Ipiranga e São Paulo, nas regiões Nordeste e Norte.

“Temos projeto pronto, que é a construção de um canal paralelo na Cristiano Machado, aliviando essa pressão de água na Bernardo Vasconcelos. Mas não temos verba”, afirma Valadão. Ele diz que o Ministério das Cidades está prestes a abrir cadastro para a captação de recursos. “Nossa vantagem é que a documentação já está em Brasília. Tivemos discussões com técnicos do ministério. Temos grande chance de aprovação. Na hipótese de não ser aprovado, é uma obra prioritária, e há de ter alternativa de outras fontes de recurso”, afirma.


De quanto a PBH precisa para executar as obras previstas

R$ 120 milhões é o valor da obra da Bernardo Vasconcelos

R$ 331 milhões é o total das obras cujo recurso está garantido

R$ 990 milhões é quanto ainda falta para iniciar projetos já feitos

Mesmo com obras, risco ainda existirá

A Prefeitura de Belo Horizonte pretende colocar em prática ao menos duas importantes obras de saneamento neste ano: a ampliação do canal de escoamento do ribeirão Pampulha, na avenida Cristiano Machado, e a construção de uma bacia de contenção do ribeirão Arrudas, no bairro das Indústrias, no Barreiro. A conclusão da primeira deve levar, no mínimo, três anos. As melhorias na vazão do ribeirão do Onça vão ajudar a minimizar os impactos também na Bernardo Vasconcelos.

As intervenções, no entanto, não significam a solução definitiva para as inundações, segundo o diretor da Diretoria de Gestão de Águas Urbanas da prefeitura, Ricardo Aroeira. “Toda vez que se faz uma obra de macrodrenagem, a capacidade de resposta está associada à chuva prevista no projeto. Se tem uma chuva que supera isso, a inundação acontece”, diz ele.

Aroeira explica que, no temporal do último dia 24, choveu quase 100 milímetros em uma hora, quase a média prevista para o mês inteiro. Segundo ele, fazer uma obra que suporte quantidades inesperadas de água implica desocupação completa da área. “É uma chuva desproporcional para a capacidade de obras que fazem sentido”, pontua.

Prioridade

“Temos 80 pontos de inundação em BH. Não é uma gestão que vai resolver. São projetos que levam anos para ser feitos e revistos e obras muito caras.”
Josué Valadão
Secretário de Obras e Infraestrutura

“A gente não consegue reduzir o risco de inundação ao nível zero, mas há técnicas de engenharia para aumentar a vazão, redirecionar a água e reduzir os impactos.”
Nilo de Oliveira
Professor da UFMG

FOTO: Leo Fontes
Josué Valadão
Secretário diz que projeto de canal está pronto, mas não há verba

 


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