Uma quadrilha nacional de tráfico de crianças pode estar por trás da tentativa de vender um bebê pela internet, que foi descoberta, na noite dessa terça-feira (6), em uma maternidade de Contagem, na região metropolitana de Belo Horizonte. A ação foi frustrada porque a mãe biológica da criança, uma mulher de 24 anos, decidiu não entregar o filho.

Segundo o delegado regional de Contagem, Christiano Xavier, a suspeita é a de que cada criança era negociada por valores R$ 15 mil a R$ 20 mil. Além da mãe biológica, outras quatro pessoas foram presas, entre elas dois casais que vieram do Rio de Janeiro para pegar a criança. “As evidências já apontam que existe uma organização forte por trás, que muitas crianças já foram vendidas, e outras estão prestes a ser entregues a esse grupo”, detalhou o delegado.

Em depoimento à Polícia Civil, a mãe contou ao delegado que é natural de Coração de Jesus, no Norte de Minas, e que ficou grávida, porém o namorado não aceitou a gestação e exigiu o aborto. Decidida a não interromper a gravidez, mas esconder a situação da família, a moça se mudou para Belo Horizonte. “Ela decidiu esconder a gravidez da mãe e de toda a família e veio para Belo Horizonte. Ela estava trabalhando em uma padaria de Contagem havia dois meses e meio. Como ela era muito gordinha, a mãe não desconfiou de que estava com cinco meses de gravidez”, contou o delegado.

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Negociação. Ainda conforme as primeiras apurações, a jovem não pretendia vender o filho. Ela conheceu a suspeita, que morava no Rio de Janeiro, em uma página do Facebook. Apontada como a cabeça do grupo, a suspeita teria dito à mãe que tinha a intenção de adotar o menino.

As duas passaram, então, a conversar pelo WhatsApp. A suspeita teria passado a cobrir algumas despesas da moça com pré-natal, medicamentos e vitaminas. “Ao longo desses quatro meses, os gastos teriam girado entre R$ 800 e R$ 1.000 em pequenos depósitos”, disse Xavier. Com a proximidade do parto, a suspeita viajou até Contagem com outras três pessoas. Mas, logo após o nascimento da criança, a moça desistiu da doação e chamou a psicóloga e assistente social da unidade de saúde, quando contou o que estava acontecendo. Em seguida, a Polícia Militar (PM) foi acionada.

A suspeita dos investigadores é que o bebê seria registrado pelo casal que acompanhou a suspeita até Contagem. “O rapaz informaria no cartório que veio passear na região, e a mulher teve o filho fora da hora. A criança já ia sair de Minas com o nome dos ‘pais’ que estavam comercializando”, explicou o delegado.

Segundo Xavier, as versões dos suspeitos são muito contraditórias, e será preciso mais tempo de investigação para conseguir desvendar o esquema e saber se há outros envolvidos. (Com Pedro Ferreira)

Detidos. Entre os cinco presos pela Polícia Militar estão a mãe biológica da criança, o casal apontado como mentor do esquema pela internet e outro casal que ficaria com a criança.


Minientrevista

Suspeito detido

O que vocês iriam fazer com a criança?

Iríamos sair do hospital com a criança e com a guia amarela. Levaríamos nossa identidade e nosso CPF para tirar a certidão de nascimento em nosso nome. Não sei quantas crianças (suspeita) já vendeu, mas acho que são várias.

Como o senhor e sua mulher conheceram a suspeita?

Minha esposa a conheceu em um grupo (de Facebook, WhatsApp). Nesse grupo, como se o anúncio fosse dela, ela me prometeu pagar as despesas de gasolina. Se o bebê fosse menina, ela iria vender; se fosse menino, nós ficaríamos com a criança. Eu já iria descer (para Rio das Ostras, no Rio de Janeiro) com a criança registrada. Não iria voltar sem documento.

O senhor e sua mulher têm filhos?

Tenho quatro filhos. São dois meus, do primeiro casamento, e dois do primeiro casamento dela. Eu me sinto arrependido.

O senhor sabe de outros casos?

Tem uma menina que está para “sair” esses dias. Acredito que já está vendida.

Como vocês descobririam que a mãe desistiu da doação?

Ela (mãe biológica) mandou um WhatsApp para a (suspeita falando que não ia mais dar a criança. (Suspeita) ficou revoltada.


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