“Se Deus tem essa voz, eu não quero me aproximar dEle”. A fala é de uma das sete mulheres que na última semana procuraram a redação de O TEMPO afirmando terem sido vítimas de abuso sexual por um pastor da Igreja do Evangelho Quadrangular de Belo Horizonte. Um dos líderes da igreja, há 25 anos Wilson Jorge Ferreira da Silva, 51, recebeu a designação para ser a “voz de Deus” como pastor na capital e região, mas há cerca de 20 anos tornou-se para pelo menos 15 fiéis, o “maníaco da orelha”. Ele teria abusado, inclusive, de uma noiva que o escolheu como celebrante de seu casamento.

Agora, após a primeira denúncia de uma fiel, a igreja afastou o pastor de suas funções, e a Polícia Civil abriu uma investigação. O Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) também está no caso.

A abordagem às vítimas seria sempre a mesma, segundo as mulheres que o acusam. O pastor marcava uma reunião a portas fechadas com uma de suas “ovelhas” ou oferecia uma carona, afirmando ter algo sério a tratar com elas. Em seguida, se aproximava e lambia as orelhas de suas vítimas, por isso o apelido dado a ele.

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O caso se tornou público quando, em 24 de fevereiro, em uma reunião com mais de 3.000 pastores, uma mulher invadiu a sede da congregação, na região Oeste da capital, gritando que precisava ser ouvida. “Ele me estuprou”, dizia a mulher. A cena foi gravada e divulgada em diversas redes sociais.

A Polícia Civil começou a investigar o caso poucos dias depois, quando uma outra vítima formalizou uma denúncia. A acusação está sendo apurado pela delegada Larissa Mascote, que não quis dar detalhes para não comprometer as investigações, mas confirmou parte das denúncias. O Ministério Público também informou que há um processo em um curso, mas ele corre em sigilo.

No altar. Nos últimos dias, O TEMPO ouviu sete mulheres que dizem ter sido vítimas de algum tipo de abuso. Uma delas foi uma mulher, que, em 2011, escolheu o pastor como celebrante de seu casamento por causa de sua propriedade impressionante para falar das “coisas de Deus”.

Algumas semanas antes da cerimônia, porém, Silva teria chamado a mulher em seu gabinete e a assediado. Em um outro caso, o pastor teria proposto levar uma vítima ao culto. No carro, ele a teria estuprado. “Ele sempre começa lambendo a orelha da gente”, afirmou uma vítima.

 

Igreja nega conhecimento de denúncias contra religioso

A Igreja do Evangelho Quadrangular afastou preventivamente o pastor Jorge Silva de suas atividades de seu núcleo religioso no bairro Salgado Filho, na região Oeste de Belo Horizonte. A igreja, contudo, afirmou nunca ter tido conhecimento de qualquer abuso envolvendo o religioso e informou que ele passou por diversos testes de comportamento.

“O pastor apresentou todas as certidões sobre sua conduta moral, sem nada que o desabonasse, tal como exigido pelo estatuto da igreja”, afirmou em nota. A Quadrangular também disse não ter sido notificada oficialmente sobre as denúncias.

O pastor já comandou igrejas nas regiões Oeste e Nordeste de BH, além de outra em Contagem. Questionada sobre a necessidade de transferir o religioso tantas vezes, a igreja disse que as mudanças ocorreram por solicitação dele.

Saiba mais

Suspeito. A reportagem tem tentado contato com o pastor por meio da igreja e das redes sociais do religioso desde a última quarta-feira, mas sem sucesso. Segundo a delegada Larissa Mascote, muitas vítimas, com medo, não formalizaram a denúncia.

Ameaças. Todas as mulheres ouvidas pela reportagem ao longo da última semana disseram estar sendo ameaçadas pelo pastor desde que a primeira vítima tornou o caso público.

Minientrevista

Vítima

Sob anonimato

Como e quando a senhora começou a ser estuprada pelo pastor? Há três anos. Quando eu estava grávida, eu estava na igreja, e ele começou a falar do meu corpo. Depois, ele começou a cheirar e a beijar meu pescoço. Por último, quando foi me dar carona para um culto, ele tentou me beijar na volta.

A senhora tem informações de mais vítimas? Eu conheço 12. Mas o pior é que dentro da minha própria casa isso aconteceu. Ele abusou da minha irmã, dos 12 aos 16 anos dela. Ele dava presentes e ameaçava ela. A coragem para denunciar só veio quando eu também me posicionei não aceitando aquilo, até mesmo porque já sou casada. Desde então, ele ameaça a gente.

Como ficou sua vida após o ocorrido? Na época, ele começou a espalhar um monte de boato a meu respeito. Disse que eu tinha traído meu marido, que tentou fazer justiça, mas falei para ele não sujar as mãos. Hoje estamos em outra igreja.


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