Um adolescente de 14 anos foi assassinado com onze tiros por uma quadrilha de traficantes em Sabará, na região metropolitana de Belo Horizonte. O plano era que o velório do menor servisse de isca para o verdadeiro alvo dos criminosos, o irmão da vítima, que estava jurado de morte pela gangue rival e que acabou não comparecendo à cerimônia de despedida.

O crime foi no dia 30 de janeiro deste ano, no bairro Capitão Eduardo, na região Nordeste de Belo Horizonte, e três suspeitos foram presos nesta quinta-feira (15) na operação Desmatamento, desencadeada pelo Departamento de Investigação de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), para cumprimento de de mandados de prisão e de busca e apreensão.

Os presos, Willian Gabriel da Silva Santos, conhecido como “Tesouro”, de 20 anos, Thiago Almeida Acácio, o “Garibaldi”, de 29, e Felipe Augusto Oliveira, o “Fubá”, 26, são integrantes da gangue Mangueiras, segundo a polícia.

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De acordo com o delegado da Homicídios Leste, Emerson Morais, o menor assassinado pela quadrilha, Rodrigo da Costa Silva, de 14, não tinha qualquer envolvimento criminal.

O policial conta que um irmão de Rodrigo se envolveu em um homicídio no bairro Nossa Senhora de Fátima, em Sabará, e que teve como vítima um homem identificado como “Beiço”, pai de Willian. Esse, para vingar a morte do pai, foi por diversas vezes à casa do Rodrigo à procura do irmão dele. “Como ele não encontrava o desafeto, efetuou diversos disparos de arma de fogo dentro da casa da família”, conta o delegado.

Ainda não satisfeito, segundo o policial, Willian convocou Thiago e Felipe para matar o menor. “No dia do crime, eles sequestraram o menor, o colocaram dentro de um veículo e o levaram para o bairro Capitão Eduardo e efetuaram onze disparos de arma de fogo contra a vítima, sobretudo na cabeça. A motivação do crime é que eles queriam acertar as contas com o irmão de Rodrigo. Mas, como o irmão do Rodrigo fugiu do bairro Nossa Senhora de Fátima após o homicídio, eles, então, pegaram o adolescente e o mataram para que o envolvido no homicídio do Beiço aparecesse no velório do irmão e, assim, eles colocariam em prática o plano de matá-lo”, conta do delegado.

De acordo com o policial, a gangue Mangueiras tem uma guerra histórica com a gangue Eucalipto, da qual faz parte o irmão de Rodrigo, que é procurado pela polícia e o delegado preferiu omitir o nome dele. “Quando o irmão de Rodrigo se envolveu na morte de um integrante da gangue do Mangueiras, acirrou ainda mais essa guerra entre as gangues”, conta o delegado.

Incêndio

Como o verdadeiro alvo não compareceu ao velório do irmão para ser morto também, e Willian não conseguiu vingar a morte do pai, como havia planejada, a gangue dele ateou fogo na casa da família do adolescente que haviam matado.

“O plano deles era matar o irmão do Rodrigo, mas como ele não aparecia, eles mataram a vítima para que o irmão aparecesse no velório e, então, colocasse em prática a sanha assassinada deles. Após a morte do Rodrigo, a família dele fugiu do bairro com a roupa do corpo, deixando móveis, utensílios domésticos, tudo dentro da casa. E eles não satisfeitos com a barbárie de matar um irmão, ainda foram lá e botaram fogo na casa”, conta o delegado.

Desdobramento

De acordo com o delegado Emerson Morais, a quadrilha é grande e a polícia vai continuar no encalço de outros criminosos. “A gente sabe que a gangue do Mangueiras é muito grande, assim como é a do Eucalipto, mas todo o empenho está sendo desencadeado, tanto pela Delegacia de Homicídios, como as delegacias de área, para levar efeito à prisão desses integrantes”, conta o delegado, lembrando que o preso Felipe, o Fubá, é suspeito de matar um policial militar na região do Barreiro, em Belo Horizonte.

A morte do adolescente chocou os moradores de Sabará, segundo o delegado, por ser a vítima um inocente, vítima da brutalidade dos bandidos. “Mais uma vez, a brutalidade desses indivíduos está estampada. Matar um jovem de 14 anos, com 11 disparos de arma de fogo, concentrado na cabeça, em razão de uma disputa de gangues em que a vítima não estava envolvida. Então, mataram um inocente somente para saciar a sanha assassinada deles, para efeito de outro homicídio. Então, eles mataram um irmão para que o outro irmão comparecesse ao velório e ali no velório matar o desafeto deles, o que não aconteceu”, disse o delegado.

Drogas

Para a operação policial, a Justiça concedeu três mandados de prisão temporária contra Willian, Thiago e Felipe, e 20 mandados de busca e apreensão.

Outros integrantes do Mangueiras foram presos: Ivan Nascimento Arcanjo, Alexsander Ferreira dos Santos e Ana Carolina da Silva Maia Santos, foram flagrados por tráfico de drogas e porte ilegal de arma de fogo. Com eles foram apreendidos uma submetralhadora calibre 380, R$ 1,5 mil, 300 gramas de cocaína, 40 buchas de maconha, uma certa quantidade de crack e uma balança de precisão.

Além dos seis adultos, três menores de 15, 16 e 17 anos, do mesmo bando foram apreendidos, um deles com uma banana de dinamite. Os menores foram ouvidos e entregues ao pais, mediante assinatura de termo de entrega e de responsabilidade. Os adultos foram encaminhados ao sistema prisional.

Defesa

Os três acusados de matar o adolescente não quiseram falar com a reportagem. Willian, que pretendia vingar a morte do pai e acabou matar o irmão do desafeto, repetiu o tempo todo que não tinha nada a declarar.

“Não tenho nada para falar não. Vou me defender como”, disse. Felipe disse não saber de nada. “Não sei de nada, nada, nada, nada. Sou integrante de gangue nenhuma. Que polícia que eu matei? De onde vocês tiraram isso? Tudo é eu?”, disse Felipe, que assume ter matado um homem no Barreiro, mas nega ter sido um PM.


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