A economia de água já é, há muitos anos, uma realidade na vida de milhões de brasileiros. No entanto, o gasto desse recurso precioso não fica somente dentro de nosso território: ele ultrapassa nossas fronteiras por meio da chamada “exportação de água virtual” – e o Brasil é um dos campeões mundiais nesse quesito, segundo a Water Footprint Network, rede criada com objetivo de resolver as crises de água do mundo.

Mas, afinal, o que significa isso? Como e por que estamos enviando tanta água para fora? A resposta pode estar bem no seu prato. Muita gente nem imagina, mas, segundo a Water Footprint Network, para que um quilo de carne bovina seja produzido, são necessários cerca de 15.415 L de água. Uma simples xícara de café de 125 mL tem por trás o consumo de 132 L desse líquido e um quilo de açúcar da cana leva junto a ele mais 1.782 L, ou seja: a nossa água vai embutida (daí o nome virtual), e, dada a natureza dos produtos exportados pelo país, fica fácil entender por que somos destaque no assunto.

“O Brasil é um dos principais exportadores de produtos agropecuários. Exportamos uma grande quantidade de água, mas que geralmente não está contabilizada. Cobramos só pelo produto final. Temos de pensar a respeito do que estamos fazendo com os nossos recursos. Ainda não existe uma definição sobre o tema e a respeito das ações que devem haver em relação a ele, mas esse pensamento tem se desenvolvido com o intuito de ajudar as pessoas a ter uma maior consciência sobre o consumo”, afirma Ricardo Ojima, coordenador do Programa de Pós-Graduação em Demografia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).

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Conforme ele ressalta, normalmente a responsabilidade do consumo é transferida ao crescimento da população, mas, quando se analisa a questão da exportação, percebe-se que não é necessariamente o ritmo de crescimento do número de pessoas que pressiona o gasto dos recursos hídricos. “Temos uma tendência à estabilização da população, mas o crescimento do consumo deve continuar”, analisa ele.

Dia a dia. Mas, afinal, o que pode ser feito, já que a exportação é importante para o Brasil? Se, por um lado, pode ser assustador pensar que em um quilo de carne bovina – que mal dá para um churrasco de domingo – há tanta água embutida, por outro, nem sempre essa precisa ser a realidade. Isso porque o gasto de recurso hídrico depende muito da forma como a produção de alimentos é realizada. Conforme explica Guilherme Karam, coordenador de negócios e biodiversidade da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza, há como mudar esses números.

“É importante aumentar o uso da boa tecnologia já existente, realizar um bom manejo do pasto, cuidar melhor da alimentação do gado. Muitas vezes, as pessoas somente cercam um local e o animal come tudo o que brota. É preciso pensar na lógica do plantio, remanejar o gado para um determinado lugar regenerar”, salienta ele. “Na agricultura, ainda há muita perda de água desde a captação do recurso até sua utilização. Além disso, nem sempre se observa a aptidão agrícola de um local, e, nesse caso, se você quiser fazer tudo superprodutivo, precisará de muita água”, afirma Karam.

Alternativa

Pensar na água embutida nos produtos é também algo importante quando se fala no consumo interno e na distribuição do recurso hídrico. Conforme ressalta Ricardo Ojima, coordenador do Programa de Pós-Graduação em Demografia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), como algumas regiões têm mais água do que as outras, abastecer áreas de maior escassez com itens alimentícios é uma ótima contribuição. “Essa transposição é importante para atender a demanda do mercado consumidor”, salienta.

No caminho

Embora ainda haja muito o que melhorar para diminuir a exportação de água virtual realizada pelo Brasil, de acordo com Ricardo Novaes, especialista em Recursos Hídricos do WWF-Brasil, a agricultura e a pecuária do país ainda estão mais avançadas quando comparadas a alguns países da Europa, por exemplo. “Os setores envolvidos têm toda uma percepção dessa questão, o que nem sempre acontece com quem mora nas grandes cidades”, salienta ele.

Por isso, de acordo com o profissional, não se pode tratar os segmentos como os grandes vilões da história – afinal de contas, as pessoas que estão na ponta também precisam ter consciência daquilo que precisa ser enfrentado. “Algo que talvez possa ser realizado é incorporar o valor da água no preço do produto, já que há muitos alimentos que são mais fáceis de serem produzidos no país, por termos recursos para isso. Valorizar quem faz direito e penalizar quem age de maneira errada também é um caminho. O mercado que quer fazer a ‘lição de casa’ pode ser apoiado, e a sociedade civil deve ser fortalecida para ser mais exigente, já que a água faz muita falta”, finaliza.


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