“Tudo o que tem dentro de uma casa eu já perdi. Eu comprava as coisas e, no fim do ano, ia tudo embora de novo. Há 40 anos eu vivo aqui e escuto promessa de obra, mas sou teimosa e acredito que vai acontecer um dia. Talvez não para mim nem para meus netos, que já estão aqui, mas quem sabe meus bisnetos possam viver com tranquilidade”, desabafa a enfermeira Nilsa Maria Andrade Sardinha, 61, dona de uma casa no bairro Santa Mônica, em Venda Nova, que, em uma das últimas inundações, perdeu o muro da frente. Mas a água já levou também a cama, a geladeira e o guarda-roupa, além de ter destruído o estúdio de marcenaria do marido de Nilsa, que complementava a renda da família. “Não é só o que a gente perde de material, é o estímulo. A gente tem uma casa e não confia de morar nela”, conta.

Em frente à casa de Nilsa, uma placa alerta os motoristas para evitarem estacionar em caso de chuva forte, mas quem vive ali não tem como fugir e reivindica obras estruturantes, que, há muito, estão no papel. Intervenções no córrego do Nado, que visam reduzir o risco de inundação nos bairros Santa Mônica e São João Batista, deveriam ter sido concluídas em 2014, mas nem foram iniciadas. Agora, novamente, a Prefeitura de Belo Horizonte prometeu licitar essa e outras duas obras de contenção de chuva nas próximas semanas, com o objetivo de minimizar os impactos da água também nas regiões Norte, Nordeste e Barreiro.

O aposentado João Carlos de Souza, 68, vive na avenida Tereza Cristina, que deve ser beneficiada com a obra prevista no Bairro das Indústrias, e diz que ele e os vizinhos da Vila São Paulo, na região Nordeste, não conseguem dormir quando chove, por causa do medo e da lembrança de tudo o que as enchentes já levaram. “Se eu for parar para contar tudo o que perdi, não vai ter hora para acabar. Não sobrou nada”, lamenta. Para seu João, falta vontade política para fazer o que é preciso e resolver o problema. “É sofrimento demais”, conclui.

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Também na avenida Tereza Cristina, a família do microempreendedor Elismar Corrêa, 41, ainda batalha para recuperar o que a chuva que atingiu a capital no revéillon de 2009 tomou. “Não perdemos a vida, mas, de resto, perdemos tudo”, conta. Para enfrentar os muitos alagamentos que vieram desde então, ele construiu a casa em um andar acima e investiu em comportas para o portão.

Na avenida Cristiano Machado, região Nordeste, o risco de enchentes será reduzido com a obra nos ribeirões da Pampulha e do Onça. Ela integra a lista de intervenções a serem licitadas em breve. A comerciante Maria Rogéria Oliveira, 52, trabalha em um carrinho de pipoca na via e viu veículos serem arrastados e placas de trânsito destruídas com a chuva dos últimos dias. Ela precisou correr e subir na passarela para se salvar: “Quando começa a chover, fico morrendo de medo e já subo na passarela. Torço para que a obra saia logo”.

 

Gerente conta que viu mesma cena há 20 anos

Apesar da tentativa dos moradores das áreas constantemente afetadas pelas chuvas de manter a esperança, o sentimento de parte deles é de descrença após o término de mais um período chuvoso. Duas das obras com licitação prevista para as próximas semanas – nas bacias dos ribeirões do Pampulha e do Onça e no Bairro das Indústrias – já haviam sido licitadas em agosto último, mas o processo foi suspenso devido a contestações de empresas sobre o edital.

O gerente de um posto de gasolina da avenida Bernardo Vasconcelos, que, segundo a prefeitura, também será beneficiada com a primeira obra, Alexandre Ramos, 43, conta que a cena que presenciou nos últimos dias, de carros arrastados pela enxurrada, ocorreu com o irmão dele em 1997. “Os problemas se repetem desde muitos anos, e a gente não vê as coisas mudarem. É preciso que haja investimento”, salienta. De acordo com Ramos, a cada alagamento, o posto fica totalmente parado e acumula prejuízos.

Saiba mais

Ajuda. Proprietários de imóveis danificados por chuvas fortes, em ocasiões como enchentes e alagamentos, por exemplo, podem solicitar a remissão ou a restituição do Imposto Predial Territorial Urbano (IPTU) à Prefeitura de Belo Horizonte. Neste ano, 39 pedidos foram deferidos e 18 negados.

Pedido. Para a abertura do pedido, o contribuinte deve comparecer à sede da Secretaria Municipal da Fazenda (rua Espírito Santo, 605), no prazo de 180 dias decorridos a partir da data da chuva,


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