A Polícia Civil investiga se um grupo suspeito de tráfico de bebês, preso em Contagem, na região metropolitana de Belo Horizonte, na semana passada, estaria negociando crianças com pessoas da Europa e dos Estados Unidos. Na segunda-feira (12), os investigadores da Delegacia Regional de Contagem confirmaram ter encontrado mensagens em grupos de WhatsApp e Facebook em que os suspeitos conversavam com pessoas da Itália e dos Estados Unidos. Elas buscavam informações sobre crianças que estavam sendo negociadas por valores entre R$ 15 mil e R$ 35 mil.

O esquema foi descoberto no último dia 6, após uma mulher de 24 anos, que teria negociado entregar o filho recém-nascido para a quadrilha, desistir e denunciar o caso. Dois casais que vieram do Rio de Janeiro para pegar a criança nascida em um hospital de Contagem foram presos. Foi nos telefones dos suspeitos que os policiais encontraram mensagens comprometedoras.

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“Existe uma rede, uma organização criminosa, com pessoas, inclusive, de outros países. A gente identificou grupos de WhatsApp com pessoas de países como Itália e Estados Unidos, com quem as crianças eram negociadas livremente”, afirmou o delegado Christiano Xavier, que está apurando o caso. As mensagens divulgadas pelos policiais mostram que as negociações era feitas no grupo Barriga de Aluguel.

Prisões. No dia em que o esquema foi descoberto, além dos dois casais presos, a mãe do menino que seria entregue ao grupo foi detida. No entanto, ela acabou liberada após pagar fiança de valor não informado.

Outras quatro pessoas – Lilia da Conceição, 32, Carlos Alberto Silva, 62, marido dela, Lediane Cruz da Conceição, 33, e Adriano Teixeira Fraga, 39, que ficariam com o bebê – foram detidas enquanto aguardavam o nascimento da criança, no saguão da maternidade de Contagem. Todos foram indiciados, segundo a Polícia Civil, por formação de quadrilha, e podem pegar até quatro anos de prisão.

Suspeita de ser a agenciadora do esquema, Lilia negou qualquer tentativa de compra. “Deus me livre. Pular fila de adoção, tudo bem, mas nenhum dinheiro sujo pulou na minha mão”, afirmou a mulher, que diz ser babá.

Fraga e Lediane contaram que conheceram Lilia em um grupo de desapego de roupas e eletrodomésticos. Fraga informou que ele e a mulher já estavam com pedido de adoção em Rio das Ostras, no Rio de Janeiro, quando Lilia pediu que eles a levassem até Contagem para que ela buscasse a criança.

“Ela disse que daria a gasolina, e a gente trouxe eles. No caminho, ela, sabendo que eu queria adotar, falou que, se o bebê fosse um menino, a gente podia adotar. Mas se fosse menina, que ela ficaria com a criança”, afirmou Lediane.

O delegado Christiano Xavier, contudo, desconfia da versão. Segundo ele, Lilia e o marido têm seis filhos, e o casal não teria condições financeiras de adotar a criança, tendo, inclusive, o nome sujo no Sistema de Proteção ao Crédito (SPC).

A Polícia Civil informou que os suspeitos não têm antecedentes criminais. “Nós fizemos uma análise na vida pregressa deles em conjunto com a Polícia Civil do Rio de Janeiro. Ainda precisamos apurar se são mentores, articuladores da organização ou se utilizam os grupos para adquirir crianças por meio ilegal,” afirmou Xavier.

 

Mãe nega ter vendido filho a grupo

Com 24 anos, a mãe biológica do menino nascido na maternidade de Contagem, na região metropolitana, que havia sido negociado em um grupo de WhatsApp, contou a O TEMPO que desistiu de entregar o bebê aos supostos compradores logo que a criança nasceu. Segundo ela, ver o filho pessoalmente fez com que o medo de ser mãe pela segunda vez chegasse ao fim. A mulher garante, contudo, que em momento algum fechou qualquer negociação de venda da criança e que foi enganada pelos suspeitos.

Ela explicou que escondeu a gravidez da família para não ser julgada por ter mais um filho. “Fiquei com medo da reação deles, do julgamento de todos. Eu não tinha coragem de contar para a minha mãe. Venho de uma comunidade muito pequena onde todo mundo conhece todo mundo e sabe da vida de todo mundo. Já fui julgada na gravidez do meu primeiro filho e ia passar por tudo isso novamente”, disse.

Ainda segundo ela, o pai da criança não aceitou a gravidez. Após o nascimento do bebê, ela desistiu da adoção. “Só depois que ele nasceu e ficou comigo, veio aquele amor de mãe. Sendo sincera, durante a gestação eu não senti nada, não tinha amor materno. Só depois que veio o amor de mãe”, admitiu a jovem.

“Quando eu vi ele (o filho), já comecei a pensar: ‘será que meu filho vai ter as mesmas oportunidades que o outro teve, um aniversário, uma pessoa que o ama de verdade? Ele vai ter uma família?’ Aí começou a vir o arrependimento, e eu não tive coragem de entregar (a criança)”, admitiu a mulher, emocionada.

Minientrevista

Mãe da criança

Sob anonimato

Como a senhora está depois de tudo?

Consigo ver a proporção de tudo o que aconteceu, ter noção do meu erro, e me arrependo muito do que eu fiz. Fui de certa forma enganada porque me falaram uma coisa e só depois fui ver que não era nada daquilo. Não vendi meu filho, só recebi ajuda para os custos da gestação.

O que os suspeitos falaram com a senhora?

Pelo grupo eu via como algo certo entregar (o filho) para a adoção ou largar no hospital, mas não sabia que estava errada. O tempo todo ela (Lilia) dizia que ela tem três ou quatro filhos e que em todas as gestações dela, ela passava muito mal. Por isso, ela havia decidido fazer uma ligadura. Ela disse que tinha muita vontade de ter esse filho e que estava na fila de adoção.

A senhora tinha medo de quê?

Do julgamento. Não tinha coragem de contar para a minha mãe. Tenho um filho e já fui julgada uma vez e iria passar por tudo aquilo novamente.


Assista ao documentário 'Orlando Sabino - O monstro de Capinópolis'

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