A mais de 10 mil km de casa, Perla Hanna, 24, universitária de design de moda, fala bem português e tem amigos em Belo Horizonte, onde vive com a família há quatro anos. No entanto, a distância da Síria, sua terra natal, não significa que ela tenha deixado de sofrer com as notícias sobre a devastadora guerra que desde 2011 toma conta do país. No último fim de semana, o bombardeio coordenado por Estados Unidos, França e Reino Unido contra o país árabe, em resposta a um suposto ataque químico do regime de Bashar al-Assad, deixou mais angustiada a comunidade síria que buscou refúgio na capital.

“O que eu penso sobre os Estados Unidos é complicado. Não estou gostando daquela bagunça que eles estão fazendo. Isso não vai dar muito certo, não vai melhorar o país, e sempre vão morrer muitas pessoas”, diz Perla. “Eu me preocupo muito com essa situação, porque tenho muitos amigos e família lá. Eu estou muito triste, pois a Síria é minha terra”, diz.

Perla mudou-se para Belo Horizonte em 2014, antes que o conflito chegasse à cidade onde ela morava na Síria. Os pais da estudante conseguiram trabalho na capital, e ela e os irmãos estudam.

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“Se Deus quiser e a Síria ficar tranquila, às vezes a gente pensa em voltar, mas não sei se para morar ou visitar, porque é um pouco difícil pensar no futuro agora. Só Deus sabe o que vai acontecer”, afirma.

Contexto. Cerca de 200 refugiados sírios vivem em Belo Horizonte. Segundo o cônsul da Síria em Minas Gerais, Emir Cadar, eles se adaptaram bem à cidade e, apesar da dificuldade do idioma e da falta de dinheiro na chegada ao Brasil, todos estão trabalhando e são bem-sucedidos.

“Eles (os refugiados) são muito felizes em Belo Horizonte, estão adorando, e muitos já estão radicados aqui. Tem um que virou cabeleireiro famoso, outro tem um laboratório de prótese dentária, um terceiro canta em festas. Mas grande parte deles partiu para a culinária, abrindo lanchonetes de comida síria em toda a cidade. Eles estão fazendo delícias árabes aqui, e as pessoas gostam”, relata o cônsul.

De acordo com Cadar, os refugiados sírios reagiram com muita indignação ao bombardeio dos Estados Unidos e seus aliados contra a Síria. Ele acredita que o ataque químico atribuído ao regime de Assad foi forjado pelos países. “Estamos lamentando demais (o bombardeio). A paz estava quase chegando lá, nós tínhamos a impressão de que (a guerra) estava bem perto do final”, afirma o cônsul. “No dia que os Estados Unidos deixarem a Síria, a paz chega. Eles que promovem essa guerra”, afirma.

Coordenadora do curso de direito da Una Betim, Roberta Mourão Donato acredita que o ataque de norte-americanos e aliados não foi legal, pois não teve respaldo do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas. Ela não vê perspectiva de fim do conflito. “Os motivos que levaram à guerra não foram solucionados. Não há trabalhos efetivos para finalizar o conflito”, disse.

Frase

“Foi um pouco difícil no começo (viver no Brasil), mas o povo brasileiro foi muito amigo, e agora a gente já está acostumado. A gente gosta daqui.”

Perla Hanna, 24

Síria que mora na capital mineira


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