A advogada Claudinéia Gonçalves, 40, já foi para uma audiência criminal levando o filho Lucas, de 3 anos, no colo. Ela não tinha com quem deixar o pequeno, já que os professores da Unidade Municipal de Educação Infantil (Umei) Castelo de Crato, na região da Pampulha, onde ele fica desde os 3 meses, estavam em paralisação. Na terça-feira (24), ela mandou uma flor para a professora do filho apoiando a greve da categoria, iniciada na segunda (23). Claudinéia faz parte de um movimento de pais que tomou as redes sociais nesta terça-feira para mostrar gratidão aos profissionais pelo cuidado e dedicação com os filhos e defender a valorização salarial e de carreira dos professores. Segundo ela, as mães estão planejando uma manifestação para o próximo fim de semana em defesa da causa dos educadores.

“Quem me conhece pergunta: ‘Como você pode apoiar a greve dos professores, se você é uma das pessoas que mais precisam?’. Preciso mesmo, mas minhas necessidades e as das outras mães são só uma parte da história. O todo é que os professores têm que trabalhar com o mínimo de condições e com um salário mais digno”, afirma a advogada, viúva e mãe de três filhos. “Quando meu bebê foi para a Umei, ele pesava 1,1 kg, porque nasceu prematuro. Elas cuidavam como se fosse eu, e eu confiava”, diz Claudinéia. E Lucas se tornou uma criança independente, feito que a mãe atribui à educadora da Umei. “As professoras são muito carinhosas e se viram nos 30 para fazer mais do que o possível com a estrutura que têm”, diz a advogada.

A analista de educação Juliana Mazala, 34, escreveu uma carta para os educadores da Umei Timbiras, na região Centro-Sul da capital – onde os filhos dela, os gêmeos Arthur e Pedro, 2, estudam desde os 5 meses. “Eu tiro o chapéu para o trabalho das educadoras. Cada projeto que elas desenvolvem tem embasamento científico. A autonomia que os meninos adquirem é uma preparação para a vida”, diz. “Eu trabalho no horário comercial, e é difícil não ter aula, preciso mobilizar todo mundo para me ajudar, mas apoio totalmente a greve. A sociedade precisa entender a importância desse profissional”, afirma Juliana.

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Os professores da educação infantil da capital entraram em greve para pedir equiparação salarial e de carreira com os profissionais do ensino fundamental. Uma manifestação realizada nesta segunda-feira na porta da prefeitura foi encerrada após o Batalhão de Choque da Polícia Militar (PM) intervir com bombas de efeito moral, jatos d’água e granadas de fumaça para a liberação da avenida Afonso Pena. Uma nova assembleia, com paralisação inclusive das escolas de ensino fundamental, está prevista para esta quarta (25).

Além de apoiar a reivindicação dos professores, os pais também criaram um abaixo-assinado em repúdio à ação da PM. Com mais de 4.600 nomes, o texto exige um pedido de desculpas da prefeitura e do governo do Estado pelo tratamento dado aos educadores.

A professora Ellen Lima Carneiro, 36, é mãe de Eduardo, 4, que estuda na Umei São Marcos, na região Nordeste, desde os 2 anos, e apoia a greve: “Vejo o avanço do meu filho desde o dia que ele chegou lá. Ele me acorda para ir à escola, faz questão”. “Só com greve para os professores serem ouvidos”, declara Ellen.

Saiba mais

Salário. Segundo o Sind-Rede, o salário inicial de um professor da educação infantil é R$ 1.400. Do ensino fundamental é R$ 2.200.

Apoio. O Núcleo de Estudos e Pesquisas em Infância e Educação Infantil da UFMG publicou um texto em repúdio à “violência policial” contra professores, ressaltando “a complexidade do trabalho de cuidar e educar bebês e crianças”.

Resposta. A PM afirmou que o uso moderado da força foi necessário após várias tentativas de negociação para a liberação da via. O governo mandou apurar possíveis excessos.


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