Treze horas depois do grave acidente que tirou a vida dos comunicadores Ronaldo Lenoir e Pedro Guadalupe, mais uma morte foi registrada na BR–381. Desta vez, no início da manhã dessa sexta-feira (4) na altura de Caeté, na região metropolitana da capital, um acidente com uma carreta matou o motorista José Luiz Torres Santos. A proximidade dos fatos, infelizmente, não é raridade na “rodovia da morte”. No ano passado, 222 pessoas perderam a vida no trecho mineiro da BR, que responde por um terço dos acidentes registrados nas estradas federais que cortam o Estado. A duplicação, que poderia contribuir para a redução da violência, avança a passos lentos.

Em 2017, houve 4.177 acidentes na BR–381, o que corresponde a 32% do total registrado nas rodovias federias em Minas Gerais no período (12.709), segundo dados da Polícia Rodoviária Federal (PRF). De acordo com o chefe de comunicação da corporação, Aristides Junior, 80% das ocorrências são causadas por falhas humanas, como falta de atenção, ultrapassagens proibidas e velocidade incompatível com a via. “A duplicação ajudaria, mas não significa que vai resolver”, afirma.

Na avaliação do economista especialista em mobilidade João Luiz da Silva Dias, a duplicação poderia melhorar as condições de tráfego. “É uma rodovia totalmente obsoleta, projetada quando a realidade era outra. A pista é simples, com muitas curvas, e abriga um tráfego intenso, caracterizado por caminhões pesados. O acidente frontal, o mais grave, é característico de rodovias não duplicadas”, pontua.

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Em 2013, foram assinados os primeiros contratos para a duplicação da rodovia. A expectativa era que as obras nos 303 km entre Belo Horizonte e Governador Valadares, na região do Rio Doce, aguardadas há mais de 20 anos, estivessem próximo de sair do papel. Mas, ainda hoje, dos 11 lotes licitados, apenas dois tiveram as obras concluídas, e, em outros dois, elas estão em andamento.

Enquanto a duplicação não sai, os motoristas convivem com o medo. O jornalista Francisco de Barros, 30, sempre vai a Vitória (ES), onde mora a família da esposa dele. Mas o casal prefere fazer a viagem de trem – apesar de ser mais demorada – a enfrentar a BR–381. “Quando fui de carro, sempre havia acidente no caminho, na ida e na volta, e muitos congestionamentos. Pelo menos de trem eu tenho hora para sair e chegar”, diz. O aposentado Miguel de Assis, 61, costumava passar pela via todos os dias. “Trabalhei em Belo Horizonte por 12 anos e fazia esse caminho com medo de sair para trabalhar e não voltar para casa. Quantas pessoas mais vão precisar perder a vida aqui?”, questiona.

Dnit. O órgão não respondeu sobre a situação dos lotes paralisados. Disse apenas que já investiu R$ 758 milhões na BR–381 e que a duplicação vai gerar benefícios como segurança e redução no tempo de viagem.

Motorista não conseguiu frear

O motorista José Luiz Torres Santos descia a BR–381 no sentido Vitória, na manhã dessa sexta-feira (4), quando se deparou com um congestionamento provocado pelas obras de uma ponte em construção. Ele não conseguiu parar e jogou a carreta para a pista contrária para não bater nos veículos parados em fila. No entanto, acabou colidindo com duas carretas e morreu após ser retirado das ferragens.

O acidente ocorreu por volta das 7h30, no KM 428, na altura de Caeté, na região metropolitana de Belo Horizonte. José Luiz Torres Santos, que não teve a idade divulgada, foi a única vítima. “Cinco viaturas do Corpo de Bombeiros com 16 militares, além do helicóptero Arcanjo, estiveram no local. Nós retiramos o motorista das ferragens, mas ele não resistiu aos ferimentos. Já os outros condutores dispensaram atendimento médico”, explicou o tenente Pedro Henrique Tavares, do 3º Batalhão dos Bombeiros

O corpo de Santos, que era natural de Recife (PE), foi encaminhado ao Instituto Médico-Legal (IML) da capital mineira. O congestionamento no local passou de 2 km nos dois sentidos durante a manhã, e a pista só foi totalmente liberada depois das 15h.

Licitações andam a passos de tartaruga

Lote por lote: essa é a esperança do movimento Nova 381 para a duplicação da rodovia. Dos 11 trechos licitados em 2013, sete estão paralisados e terão que passar por novo certame. Há obras em andamento apenas nos lotes 3.1 e 7. “O prazo de conclusão dos dois lotes era o fim de 2019 e passou para maio de 2020. O orçamento definido pela União para este ano é R$ 250 milhões, e precisamos de pelo menos R$ 500 milhões. Se os dois lotes forem concluídos, já teremos em torno de 60 km duplicados”, diz o diretor da Federação das Indústrias de Minas Gerais do Vale do Aço e coordenador do movimento Nova 381, Luciano Araújo.

Segundo ele, há expectativa de que o lote 4 seja licitado em maio, mas as obras só devem começar no próximo ano. O lote 8A também deve ser licitado até o fim de 2018. “É melhor trabalharmos lote por lote do que começar todos de uma vez e ter que parar. Vamos continuar lutando para retirar esse apelido de ‘rodovia da morte’ da BR–381”, afirma Araújo. Para ele, a duplicação contribuirá para a redução da imprudência dos motoristas.


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