Encarcerados, eles vivenciaram uma experiência de libertação completa sem ultrapassar os muros do Complexo Penitenciário Público-Privado (CPPP), em Ribeirão das Neves, na região metropolitana. Durante dez dias, os detentos do regime fechado se despiram da roupa de presidiário – trocaram o uniforme vermelho por peças brancas –, livraram-se das algemas e deixaram as celas por uma ala especialmente adequada para a prática de vipassana, uma das técnicas de meditação mais antigas da Índia, que significa “ver as coisas como elas realmente são”.

Pela primeira vez aplicado em um presídio no Brasil, o curso é baseado em princípios como silêncio total, alimentação vegetariana simples e ausência de contato físico. Inicialmente, 25 detentos manifestaram interesse e participaram da prática, que requer foco e disciplina. Eles concordaram, inclusive, em abrir mão de um fim de semana de visita para se entregar à meditação – foram dez dias, entre 18 e 28 de abril, das 4h às 21h30.

Nesse período, os presos aprenderam técnicas de respiração e desenvolveram habilidade de observar as sensações do corpo, levando a reflexões que eles nunca tiveram a oportunidade de fazer. “Foi uma batalha o que a gente enfrentou lá, é difícil não poder conversar. Até o terceiro dia, a gente ficava cochichando um com o outro, mas, depois, começou a levar muito a sério e valeu a pena”, contou Edgar Costa Teixeira, 27, preso há sete anos. Além do exercício do autocontrole e da oportunidade de se conhecer melhor, o curso foi o pontapé inicial para Teixeira abandonar o cigarro, um desafio antigo. “Aprendi a lidar com as dificuldades que tenho e a controlar a ansiedade, a dor física. Foi bem legal”, diz.

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Preso há mais de dez anos, Maxwel Gonçalves Pereira, 31, já passou por vários presídios e, pela primeira vez, fez uma atividade diferente dentro do sistema. “Eu continuo meditando todos os dias dentro da cela. Aprendi que os sofrimentos são causados pelo apego e que nada permanece como está. Eu estou preso agora, mas isso vai passar. Comecei a ter conforto para refletir, e isso traz calma”, conta.

A meditação vipassana busca o desenvolvimento da saúde mental por meio da auto-observação. A prática não tem relação com religião e permite às pessoas enfrentarem os problemas de maneira mais equilibrada.

A iniciativa de levar o curso para um presídio partiu de alunos antigos de vipassana de Minas Gerais. “O objetivo é aliviar o sofrimento dos detentos, transmitindo a eles essa técnica milenar de autoconhecimento que purifica a mente”, diz Silvia Escorel, professora assistente de S. N. Goenka, considerado o professor mais importante da técnica.

Segundo Silvia, o CPPP foi o presídio que ofereceu a maior receptividade ao projeto. O próprio diretor-presidente da Gestores Prisionais Associados (GPA), que administra o complexo, Rodrigo Gaiga, participou do curso no ano passado: “As pessoas param para pensar em si mesmas e nas consequências de seus atos. A tendência é muito grande de ele (o preso) realmente se ressocializar e, ao sair, ter oportunidade de pensar no que fazer pela frente”.

Turma. Dos 25 detentos, 21 receberam a declaração de conclusão do curso em um almoço com a presença dos familiares. Quatro desistiram.

Saiba mais

CPPP. O complexo tem três unidades, com capacidade para 2.164 presos.

Atividades. 640 internos desenvolvem trabalhos como artesanato, confecção de uniformes e fabricação de blocos de concreto.

Custos. Um preso do CPPP de Ribeirão das Neves custa ao governo cerca de R$ 3.805 por mês. Nas unidades estatais, o custo médio é de R$ 2.700 mensais por detento.

Apac já adota prática da ioga

A meditação é realidade entre recuperandos da Associação de Proteção e Assistência ao Condenado (Apac) de Santa Luzia, na região metropolitana, desde 2015. Todos os sábados, cerca de dez homens participam das aulas ministradas pela Associação Brasileira dos Amigos de Kundalini Yoga (Abaky).

“Os recuperandos dizem que se sentem mais estáveis emocionalmente, têm um autocontrole mais fortalecido e passam a ajudar os outros com mais efetividade no dia a dia”, diz o professor de Kundalini Yoga Sat Meher.

Ele acredita que a prática rende resultados positivos mesmo após a liberdade do recuperando. “Muitas vezes, o crime é praticado em um ato de reação às circunstâncias que confrontam o individuo, e ele consegue controlar melhor o impulso, facilita muito o convívio social”, avalia.

“O que mais toma conta de um preso é a ansiedade, a busca por um trabalho, pela remição de pena, por ir embora. E a meditação ajuda a ter equilíbrio, sensatez, mata um pouco essa ansiedade”, afirma o encarregado de segurança da Apac, Wilmar Ramos.

No Brasil, a Associação Arte de Viver leva as técnicas de meditação a vários presídios do país, principalmente de Salvador, Rio de Janeiro e Fortaleza. “Os relatos são incríveis sobre como eles ficam conscientes não só do que fizeram como do que fazer dali em diante”, diz Ruy Nunes, instrutor e coordenador da associação em Minas. Segundo ele, a ideia é trazer a iniciativa para presídios do Estado.

Presídio quer área própria para técnica

A expectativa da empresa Gestores Prisionais Associados (GPA) é levar a experiência de vipassana a todos os presos do complexo. A ideia é que haja um espaço específico para a prática da meditação.

“Temos que mostrar ao Estado os benefícios desse projeto piloto para que ele nos autorize a levar aos demais presos”, diz o diretor-presidente da GPA, Rodrigo Gaiga. O curso realizado em abril não teve custos para o Estado.

Segundo a professora Silvia Escorel, a intenção é levar a iniciativa também para outras unidades prisionais do país. Isso já ocorreu, por exemplo, em presídios da Índia e dos Estados Unidos: “Continuaremos a buscar presídios onde os responsáveis se interessem pelo projeto. É condição essencial que alguém da instituição faça o curso para entender o processo”.


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