Em 1962, quando o hambúrguer, o milk-shake e a banana-split eram sucesso entre os personagens nos filmes de Hollywood, surgia, em Belo Horizonte, a primeira hamburgueria da cidade, o Xodó, na praça da Liberdade, na região Centro-Sul. Depois de 56 anos servindo e marcando a história de várias gerações, a notícia de que a empresa, a marca e até o imóvel onde funciona estão à venda pegou de surpresa antigos e novos clientes.

O Grupo Bonsucesso, proprietário da lanchonete, que atua no mercado financeiro, de bancos e concessionárias de veículos, resolveu se desfazer do negócio por ele fugir de seu ramo de atuação. Para quem tem interesse na compra, a empresa, o ponto e a marca não devem custar menos de R$ 4 milhões, segundo cálculos de um especialista do ramo imobiliário.

O compositor Pacífico Mascarenhas, 83, um dos principais personagens do livro “A Turma da Savassi”, lançado recentemente pelo escritor Jorge Fernando dos Santos, fala com nostalgia do Xodó, que marcou boa parte de seus “anos dourados”. Entre 1950 e 1960, Pacífico fez parte do grupo de rapazes festeiros e briguentos que viraram tema da obra. Ele conta que, antes da construção do prédio do Xodó, existia no local um ringue de patinação, onde as pessoas usavam patins de madeira e ficavam circulando. 

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“Tinha um footing toda quinta-feira na praça da Liberdade. Quem tinha carro ficava dando voltas, e as turmas dos dois lados da praça ficavam passeando, olhando as namoradas. Muita gente que estava na praça ia no Xodó fazer lanche. Tinha um sanduíche, o único que tinha aqui, em Belo Horizonte”, recorda o compositor. 

Ele conta que, em determinada época, quem chegava à noite ao Xodó não encontrava nem lugar para se sentar. “Era uma moda. Todo mundo da cidade ia para lá: do Lourdes, do Santo Antônio e de vários outros bairros. É uma pena para a cidade acabar com a lanchonete”, lamenta. 

HistóriaO escritor Jorge Fernando destaca a importância do Xodó para a história da capital mineira. “Um lugar onde nasceram muitos namoros e amizades. Belo Horizonte tem sempre essa dificuldade de manter viva sua memória, sua história. Parece que a cidade ignora que o turismo no mundo inteiro preserva os lugares históricos justamente para atrair visitantes. O Xodó, certamente, assim como a antiga Padaria Savassi, é um endereço que deveria ser preservado para a história da cidade”, afirma.

“A minha relação com o Xodó é de xodó mesmo, carinho. São quase 60 anos de uma boa relação. Fico sentida com a venda dele”, lamenta a professora aposentada Ana Maria Maluf Jacob, 77.

Cálculo

Valor. O metro quadrado no entorno da praça da Liberdade está estipulado cerca de R$ 15 mil. O Xodó tem 300 metros quadrados, segundo o diretor da Direcional William Almeida.

 

Presente desde a inauguração

O psicólogo e psicanalista Augusto Carlos Duarte, 61, lembra como se fosse hoje de quando os pais dele o convidaram para um passeio, e a surpresa era a inauguração do Xodó.

“Eu tinha quase 6 anos na época. Ainda moro na rua Gonçalves Dias, no quarteirão abaixo do Xodó. Uma das primeiras coisas que eu fui surpreendido foi quando eles me fizeram a surpresa de levar lá. Desde então, a lanchonete virou ponto de encontro com a turma e com as namoradinhas. Hoje, continuo frequentando a praça da Liberdade e o Xodó ainda é muito querido”, conta.

Para Duarte, quem comprar a marca e o prédio deveria manter o negócio, que já faz parte da praça da Liberdade. “É um ponto de referência. O Xodó viu nascer muitas coisas. Reunia a turma que gostava de rock, a turma da política, o lugar onde a gente ouvia os primeiros discos de muitos músicos mineiros”, reforça.

Segundo o psicólogo, manter a marca Xodó deveria ser uma exigência da cidade. “Belo Horizonte, a caminho dos seus 120 anos, já está muito descaracterizada”, lamenta ele.

Saiba mais

Atuação. A Direcional Empresas BH foi contratada pelo Grupo Bonsucesso para fazer a avaliação e a venda do imóvel e da marca Xodó.

Justificativa. “O Xodó é uma operação que não tem a ver com o mercado em que eles atuam hoje. Eles estão desviando uma diretoria e uma gerência para tomar conta de um negócio que não tem a ver com o ramo da atividade deles”, explica o diretor da Direcional, William Almeida.

Preservação. Segundo ele, o Bonsucesso não vende apenas o imóvel, sem o negócio, exatamente para preservar o Xodó. “Quem comprar vai ter que manter o nome por um certo período, mas não tem um prazo determinado. Nós estamos recebendo as propostas dos interessados e vamos analisar o perfil de cada um”, disse. O valor no negócio não pode ser revelado, conforme Almeida.


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