“Na minha casa, entra água em tudo. Dá uns seis palmos de água. Quando entra na garagem, entra no meu carro todo. Na última chuva, entrou na casa toda. Meu piso está quebrado, e eu não tenho dinheiro para arrumar. Ele afundou mesmo. Perdi tudo: sofá, geladeira, cama, colchão, esteira, guarda-roupa. Gastei cerca de R$ 6.000 só com as coisas mais básicas, que não podia ficar sem”, contou o aposentado Sebastião Fidelis, 76, sobre o período chuvoso do ano passado. Ele é um dos 179.314 moradores de Ribeirão das Neves, na região metropolitana de Belo Horizonte, que vivem em áreas de risco de desastres naturais capazes de acarretar enxurradas e inundações. Entre as 20 primeiras, Neves aparece em segundo lugar quando se analisa o número de forma proporcional: mais de 60% da população da cidade está em áreas de risco de desastres. O quarto lugar da lista em termos absolutos é ocupado por Belo Horizonte, e o nono, por Juiz de Fora, na Zona da Mata 

Segundo o estudo “População em áreas de risco”, divulgado nesta quinta-feira (28) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Ribeirão das Neves é a sétima cidade no ranking dos municípios com mais pessoas vivendo em áreas onde podem ocorrer desastres naturais.

De acordo com a pesquisa, que coletou dados de 872 municípios com histórico de desastres no país, o conhecimento das características da população e das moradias localizadas em áreas de risco é “imprescindível para a adequada gestão do risco e respostas aos desastres, com a consequente redução de danos humanos e materiais em todo o globo”.

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A dona de casa Bianca Mayone, 22, moradora de Ribeirão das Neves, relata que aguarda há anos uma solução do poder público para um córrego que sempre transborda em todos os períodos de chuva. No ano passado, a casa onde morava foi destelhada, e ela precisou se mudar para a residência da sogra. “Minha geladeira caiu do segundo andar. Só sobrou o guarda-roupa. Na época, a prefeitura me disse que iria doar telhas, mas, quando fomos buscar, não havia mais nenhuma”, conta. 

Análise. Segundo o coordenador de geografia do IBGE, Cláudio Stenner, a principal vantagem do estudo é dar visibilidade para mais de 8 milhões de pessoas que vivem em áreas de risco. “Com essa informação, ações de monitoramento de alerta (de áreas de risco) podem ser melhoradas”, afirma.

O especialista pontua que a pesquisa considera dados do Censo 2010, o que permite aos órgãos públicos conhecerem o perfil de quem mora nas áreas de risco. “Desse modo, as autoridades têm conhecimento, por exemplo, se há mais crianças ou idosos em locais onde há possibilidade de desastres, dados que podem constar nos planejamentos”, explica.

 

Prefeituras atuam na prevenção

Em nota, o governo de Minas informou que trabalha em parceria com os municípios para minimizar os desastres e que desenvolve metodologias para o mapeamento de riscos. A PBH disse que o trabalho de prevenção é intensificado nos meses que antecedem a estação chuvosa. Ainda segundo o órgão, o plano de obras prevê investimentos de R$ 800 milhões em drenagem e saneamento até 2020.

A Defesa Civil de Ribeirão das Neves informou que faz regularmente o desassoreamento de córregos e trabalha com blitze educativas. A Prefeitura de Juiz de Fora foi procurada, mas não respondeu.

Números

Nacional. No Brasil, ao menos 8,2 milhões de pessoas vivem em áreas propensas a ter desastres naturais, conforme apontou o estudo do IBGE “População em áreas de risco”.

Parcial. A região Sudeste, que teve 308 municípios analisados na pesquisa, apresentou o maior contingente populacional residindo em áreas de risco: 4,2 milhões de moradores.

Parceria. O estudo do IBGE foi elaborado com o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) e considerou dados do Censo 2010. 


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