Uma cidade marcada pelo sofrimento de quem ficou

Cuparaque. Os três estouros de um foguete, um garoto batendo duas garrafas plásticas e um grito eufórico, instantes depois da comemoração pela classificação da seleção brasileira para as oitavas de final da Copa do Mundo, na última quarta-feira, quebraram o silêncio da pacata Cuparaque, cidade do Rio Doce, localizada na divisa com Espírito Santo e a 150 km de Governador Valadares. A calmaria do município, onde carros ficam abertos e boa parte das casas não possuem muros, é, diriam mais tarde alguns dos moradores, uma das características do local, que tem 4.995 habitantes.

Há cerca de um mês, no entanto, a apreensão tomou conta de pelo menos três lares da cidade. Um deles é o da aposentada Nedina Miranda, 56. Ao receber a reportagem com olhos marejados, ela pouca importância dava à vitória da seleção. Queria mesmo saber se a irmã Jaene Silva de Miranda, 42, e os sobrinhos Eric, 16, Cibele, 10, e Miguel, 8, estavam bem depois de terem sido separados ao atravessar ilegalmente a fronteira do México com os Estados Unidos. A mãe das crianças está presa, e os filhos, em um abrigo no Arizona.

Cuparaque é conhecida pela grande quantidade de pessoas que, desde a década de 1980, vão para o exterior em busca de condições melhores do que as oferecidas pelo município – que tem a economia baseada no cultivo de manga e café e na produção de leite.

A própria Nedina já morou dez anos em Boston, onde trabalhou como garçonete e juntou dinheiro para comprar uma casa no Brasil. “Eu amo aquele país”, repetiu algumas vezes. Segundo dados da Receita Federal, entre 2013 e 2017, o número de brasileiros que deixaram o país sem data pra voltar aumentou 136,5%.

Mas com a política de tolerância zero com a imigração ilegal adotada pelo presidente norte-americano Donald Trump até a última segunda-feira (25), o sonho de prosperidade tornou-se mais difícil. Na gestão do republicano, cerca de 2.300 menores foram separados de suas famílias. Desses, 58 são brasileiros – três são os sobrinhos de Nedina. “Já chorei tudo o que tinha que chorar, cheguei a perder oito quilos por causa disso”, revela. O alento veio de uma cunhada de Jaene. Joelma Rosa, 32, ficou sabendo que os sobrinhos vão morar com parentes em Boston. “Uma sobrinha da Jaene foi chamada para apresentar digital que comprova o parentesco com os meninos”, contou.

 

Dor faz famílias quererem acreditar que tudo está bem

Outras duas famílias de Cuparaque foram separadas quando cruzavam a fronteira dos Estados Unidos. A mãe de Wagna Rodrigues, 35, prefere acreditar que os 3.000 km que separam a enfermeira do filho de 9 anos não existem mais. “Eles estão bem, minha filha está trabalhando, e o menino, brincando”, disse a senhora, levantando as mãos para o céu. Sem querer dar entrevista e sem se apresentar, ela encerrou a conversa: “Obrigada, viu”.

Apesar da esperança, o cônsul geral adjunto do Brasil em Houston, Felipe Costi Santarosa, confirmou que o menino Arthur ainda está em um abrigo em Houston (Texas), e a mãe dele foi presa em Massachusetts. A boa notícia é que Wagna conseguiu liberdade condicional. “A gente espera que ainda nesta semana eles se reúnam novamente”, disse.

Do outro lado da cidade, o desempregado Rubrivaldo Nato de Oliveira, 45, pede para terminar de fumar o cigarro, apoia o corpo na cerca e fala do irmão, Rubier Oliveira, 44, e do sobrinho, Guilherme, 17, detidos nos Estados Unidos. Rubier foi para a prisão em El Paso, no Texas, e o filho está em um abrigo em Chicago (Illinois). Quase 2.500 quilômetros separam os dois.

Apesar das prisões, Rubrivaldo – que fez o trajeto nos anos 2.000 com o apoio de coiotes – tenta pensar no lado positivo: os parentes poderiam ter sido pegos por traficantes entre Juarez (México) e El Paso: “Graças a Deus sabemos que estão presos. Poderíamos ter recebido a notícia de que eles estivessem mortos”. Antes de acender o próximo cigarro, ele suspira: “É a necessidade de emprego, a pessoa acaba se desesperando”.

Mãe que ficou

Contato. Mãe de Guilherme, Ana da Silva, 41, diz que o menino liga uma vez por semana para avisar que está bem. “Ele diz que é tudo regrado, mas não está sendo mal tratado”, conta.

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