Uma pesquisa acadêmica e colaborativa vem reunindo fotografias de cartazes, faixas, bandeiras, pichações e outras grafias dos protestos de junho de 2013. O professor da Universidade de Minas Gerais (UFMG) e doutorando da Universidade de São Paulo (USP), Roberto Andrés, criou no último mês o site “Grafias de junho”, onde compila a produção da época em mais de dez cidades brasileiras.

Ele e outros três bolsistas têm entrado em contato com vários fotógrafos, jornalistas e outras pessoas que participaram dos atos na época. Cinco anos depois, o pesquisador diz que muitos tratam as manifestações “como um enigma a ser decifrado”. O que levou tantas pessoas às ruas, após uma década de crescimento econômico? Os manifestantes eram de direita ou esquerda? Que problemas do país apareceram nas ruas? Era só por vinte centavos?

“Foi para buscar contribuir com o debate e a memória acerca de 2013 que comecei a catalogar a produção gráfica de mensagens políticas daquelas jornadas”, explica Andrés.

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O site já foi ao ar com um  acervo de 1.300 fotografias que contém mais de 2.000 cartazes, todos com textos transcritos, além de informações sobre cidade, data e temática. “Havia um Brasil em ebulição que buscava se expressar em mensagens”, pontua.

Andrés diz que tem o objetivo de ampliar o catálogo para cerca de 15 mil fotografias, além de produzir infográficos e outras funcionalidades para pesquisa. “Pesquisadores de diversas áreas podem utilizar essas informações para investigar o período, comparar a presença dos temas em diferentes cidades, a evolução das pautas ao longo dos protestos”, ressalta.

“Este acervo de imagens existe, mas hoje está disperso em centenas de computadores pessoais e HDs de fotógrafos, profissionais ou amadores. Reunir essas fotografias é uma tarefa importante, em busca da preservação da memória do maior ciclo de manifestações da história recente do país”, diz no texto de divulgação do projeto.

Belo Horizonte

Andrés diz que em BH, há alguns aspectos a serem destacados durante as manifestações, entre eles a elitização do Mineirão, a administração municipal e a mobilidade urbana.

“Havia uma insatisfação com a reforma do Mineirão. Há vários cartazes de barraqueiros, que diziam que já estavam há vários anos sem trabalhar por conta da reforma”, diz.

O pesquisador destaca que havia um aspecto forte em relação à instisfação com a gestão do ex-prefeito Márcio Lacerda, “A questão das obras, toda a gestão da cidade. Tem um cartaz que fala ‘Lacerda vendeu uma rua, me ajude a vender meu Chevete'”, destaca.

Além disso, ele diz que a luta contra o aumento da tarifa não pode ser deixada de lado. “Percebemos a luta em torno da mobilidade urbana que havia na gênese do movimento Tarifa Zero BH. Foi uma movimentação importante de debate de mobilidade”, lembra.

Financiamento coletivo

A ampliação do acervo e a realização de uma exposição em junho de 2019 depende de um financiamento coletivo (clique aqui e acesse) criado por meio da plataforma Catarse. “É um chamado para compartilharmos a preservação dessa memória”, diz Andrés.


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