Governador Valadares. Governador Valadólares é um apelido que não cabe mais à cidade com a maior população do Rio Doce. O município, que já teve a economia aquecida por dinheiro estrangeiro injetado por valadarenses morando nos Estados Unidos, agora se sustenta com comércio e prestação de serviços. Quem faz a análise é o secretário municipal de Desenvolvimento, Carlos André Teixeira Coelho. “Grande parte dos moradores da região do Rio Doce vem para cá fazer compras ou se consultar em clínicas médicas, por exemplo”, justifica.

Alguns números reforçam a teoria. Em 1980, no auge da emigração valadarense, cerca de 34 mil habitantes foram para outros países, e os Estados Unidos eram o principal destino, segundo pesquisa do Projeto Remessas, realizada pelo Sebrae. O número representava 15% da população local. Hoje, são cerca de 25 mil valadarenses morando nos EUA, 8,89% dos 280.901 habitantes da cidade, segundo estimativa do IBGE de 2017.

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Agora, municípios menores do Rio Doce, como Goiabeira, Conselheiro Pena, Central de Minas e a própria Cuparaque, retratada na edição de O TEMPO deste domingo (1), é que têm vivido o ápice do chamado sonho americano. “Está acontecendo em outras cidades o que já aconteceu aqui no passado. Hoje, quem sai de Valadares busca essencialmente o turismo”, diagnostica Teixeira.

Geógrafa e autora de uma tese sobre menores que ficam vulneráveis com a migração dos pais, a doutora Silvana Pena confirma a avaliação de Carlos Coelho. “Como a maior cidade da microrregião, Valadares tem em sua população pessoas de muitos outros municípios. Essa rede social, que foi inicialmente formada em Valadares já se expandiu e influencia moradores de outros municípios, cuja realidade socioeconômica é ainda pior, a migrarem”, avalia.

Como tudo começou. Na década de 1940, a mica, mineral empregado na criação de materiais elétricos e de precisão, era abundante na cidade. Isso atraiu norte-americanos, que iam até o município para explorar o material. Vinte anos depois, a decisão de embarcar para os Estados Unidos passou a ser um desejo compartilhado entre os valadarenses, que tanto passaram a migrar para o país quanto incentivaram seus compatriotas a irem também.

“Estima-se que o processo de emigração começou na década de 1960, mas na época os censos brasileiros não registravam dados de migração. Então, essa estimativa do ano de início desse processo é baseada em pesquisas qualitativas”, pontua Silvana Pena. Na década de 1980, o dólar já era tão comum na economia da cidade, que alguns bens eram vendidos de acordo com a moeda internacional. Nessa lista incluíam-se desde terrenos e imóveis até linhas telefônicas que, à época, valiam uma fortuna.

 

Vivência fora já não é mais lugar comum

Governador Valadares. Ao contrário de Cuparaque, em Governador Valadares já não é tão fácil achar alguém que tenha tentado a vida no exterior. No centro da cidade, a equipe de reportagem demorou duas horas até encontrar, atrás de uma mesa de imobiliária, um morador para contar história. O corretor de imóveis Aroldo Batista, 70, fez as malas com destino aos Estados Unidos aos 55 anos, quando o dinheiro ficou curto para bancar o ensino superior das três filhas. Depois de ter empresariado por anos na construção civil, mas sem nunca ter batido um martelo, Batista precisou “subir no telhado e serrar madeira” na terra do Tio Sam.

“Eu tinha 32 funcionários”, recorda. “Mas, na mudança do governo do (José) Sarney para o do Fernando Henrique, com a troca de moeda, meu negócio não se sustentou, e tive que fechar minha empresa”, lembra. Foram seis anos, entre 2003 e 2009, se mudando sempre em busca de trabalho. Todo dinheiro era enviado para o Brasil, para ajudar a família.

 

Planos para reduzir dependência internacional estão só no papel

Cuparaque. A economia de Cuparaque é movimentada pelo dinheiro mandado por moradores no exterior. Basta uma volta pelas ruas para conferir que algumas casas construídas em estilo norte-americano destoam das demais. Vale também perguntar para algum morador como conseguiu comprar um terreno. “Com dinheiro de fora”, cravam.

Os gestores têm planos para tentar mudar essa realidade, investindo, por exemplo, no turismo, mas eles ainda estão no papel. Alguns dependem de verba de fora, como os R$ 400 mil do Estado esperados para construir um mirante e uma praça. “Temos paisagens bonitas, que atrairiam pessoas”, diz a prefeita, Mônica Balbino.

Também há planos para uma tirolesa de 2.600 metros, que seria a maior do mundo, orçada em R$ 500 mil. “Mas o projeto está arquivado”, lamenta o chefe de setor da Secretaria de Turismo, Carlito Guilherme.

Em dados

Economia. Segundo o secretário municipal de Desenvolvimento de Valadares, Carlos André Teixeira Coelho, o dinheiro que vem do exterior representa 20% de tudo que é injetado na economia. Os demais 80% vêm do comércio e de serviços, que incluem a receita proveniente do turismo.

PIB. Segundo os dados mais recentes do IBGE, de 2015, Valadares teve PIB de R$ 5,4 bilhões. Desse total, R$ 4,25 bi vieram de serviços, indústria e agropecuária.

Fora de Valadares

8,89% é o percentual de valadarenses que vivem hoje no exterior. Número já foi de 15%, na década de 80.


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