Desde a última quinta-feira, o Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais (HC-UFMG) começou a convidar os parceiros das gestantes que são atendidas na unidade a também fazerem o pré-natal. Em apenas três dias, os cinco homens que foram abordados toparam a proposta e vão passar por exames clínicos e de sangue para detectar possíveis doenças. O projeto, pioneiro em Belo Horizonte, é voltado para os parceiros das gestantes de alto risco. 

Segundo a médica e coordenadora do Ambulatório de Obstetrícia do HC-UFMG, Regina Amélia Aguiar, além de prevenir doenças que possam afetar o bebê, o projeto faz com que o futuro pai passe a se preocupar com sua própria saúde. “Dificilmente o homem procura uma unidade básica de saúde”, considera. Ao acompanhar a gestante na consulta, o parceiro é convidado a passar por uma bateria de exames. O processo é feito por enfermeiros obstetras. Caso haja o diagnóstico de alguma doença, o homem é encaminhado para se tratar numa unidade básica de saúde. As doenças como sífilis, HIV e as hepatites podem afetar o bebê. Caso o homem não se trate, ele pode transmitir para a gestante, que corre o risco de entrar num processo de “recontaminação” e, consequentemente, prejudicar o bebê. “Sífilis pode causar aborto espontâneo ou sequelas”, enfatiza a médica.

Pai presente antes mesmo do nascimento do pequeno Theo, de dois anos e meio, o advogado Jarbas Aredes, 39, fez questão de fazer todos os exames para garantir que o filho nasceria saudável. No período do pré-natal, Aredes acompanhou a mulher em praticamente todas as consultas – só faltou a uma – e, inclusive, era pesado pela médica. “Achei fundamental fazer os exames, era uma maneira de saber que ele viria com saúde”, considerou o advogado. Mesmo após a gravidez, Aredes continuou fazendo seus exames rotineiros para seguir saudável e cuidar do bebê, do outro filho e do enteado – que hoje têm 13 e 15 anos.

 

Programa é previsto em portaria do Ministério da Saúde

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O Ministério da Saúde publicou, em outubro de 2017, a Portaria 1.474, que inclui o procedimento “consulta pré-natal do parceiro” na tabela do Sistema Único de Saúde (SUS). Desde então, 71 municípios de 15 Estados implantaram o programa – totalizando 1.078 consultas, 2.406 exames de HIV no parceiro ou na gestante e 6.081 testes de sífilis na grávida ou em seu companheiro. Os números foram divulgados pelo Ministério da Saúde.

Entre a lista de exames oferecidos no pré-natal do parceiro estão: tipagem sanguínea e fator RH; exames para detecção de Sífilis, HIV, hepatites C e B; hemograma; lipidograma; dosagem de colesterol; dosagem de triglicerídeos; dosagem de glicose; eletroforese da hemoglobina (para detecção da doença falciforme); aferição de pressão arterial; verificação de peso e cálculo de Índice de Massa Corporal (IMC).

A Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais informou, por meio de nota, que o Ministério da Saúde determina que os exames de pré-natal sejam realizados em todo o serviço de atenção primária. Já a Secretaria de Saúde de Belo Horizonte, informou que o procedimento “está previsto no protocolo de pré-natal dos 153 centros de saúde da capital”.

Falta de hábito

Pesquisa. Estudo do SUS em 2014 mostrou que mais de um terço dos homens que foram pais/parceiros de mulheres que tiveram filhos naquele ano não tinham o hábito de ir a centros de saúde.

 

Minientrevista

Regina Aguiar

Coordenadora do Ambulatório de Obstetrícia do Hospital das clínicas

Qual o objetivo do pré-natal masculino?

No Hospital das Clínicas, objetivamos trazer isso para a atenção especializada incorporando o parceiro também nos ambulatórios de gestação de alto risco. O grande objetivo é avaliar a saúde do homem, tanto do ponto de vista de obesidade, hipertensão e elevação de glicemia, quanto de infecções que possam afetar o feto. É cuidar da saúde do pai para que a família seja mais saudável. 

Já existe alguma legislação que trata desta questão no país?

O procedimento foi regulamentado pelo Ministério da Saúde em 2017, voltado para a atenção básica. A universidade está cumprindo um papel social de construir um fluxo de atendimento para o homem. Qualquer parceiro tem esse direito (de fazer o pré-natal).


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