O que dói não é só a fome nem só a solidão. O mais difícil é se acostumar com os olhares em constante julgamento. Há oito anos na rua, José Carlos Monteiro Lopes, 52, oferece o sofá surrado e forrado com um lençol para quem tem um pouco mais de tempo e “coragem” para conversar. Em frente aos colchões e papelões, o “Pastor”, como é conhecido, diz logo: “Ninguém está aqui porque quer. Acham que todos são vagabundos. Sou um homem de bem, estou aqui de passagem”, diz.

Lopes morava com a mulher e os oito filhos no entorno do Anel Rodoviário, na BR–262, em Belo Horizonte. Após uma traição, saiu de casa e nunca mais voltou. Sem emprego, hoje só sabe que tem sete netos. “Saí sem destino. Hoje me encontro nesta situação. Essa aqui é a minha família. A gente briga, discute, mas a família é sempre unidade. Pena que o tempo não volta”, reflete.

De acordo com o último levantamento da Prefeitura de Belo Horizonte, feito em março de 2017, a maioria das pessoas foi para as ruas devido a conflitos com a família ou por questões financeiras. Segundo a pesquisa, 30,11% das pessoas relatavam algum problema com familiares ou companheiros como o principal motivo para irem para a rua. Problemas relacionados a álcool e drogas foram citados por 10,06% dos entrevistados. Já o desemprego foi o fator decisivo para que 8,43% adotassem a rua como morada. “Eu e minha família, a gente não dava certo. Meu pai bebia muito, batia em mim. São escolhas”, revela a moradora de rua Flávia Sampaio, 28.

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De acordo com o estudo da PBH, 94% da população de rua deseja sair dessa situação. Mas, segundo a psicóloga e pesquisadora da UFMG Michelle Ralil, que participou do levantamento da prefeitura, o reingresso à família não é fácil “A dificuldade de estruturação e de prover uma renda aumenta a tensão familiar. Muitos desses laços são frágeis, se rompem ‘à toa’. Eles gostariam de voltar, mas têm o orgulho e o desafio da aceitação. A pessoa quer voltar para casa num momento melhor, mas acaba perdendo a noção de tempo e espaço e vai ficando na rua”, destaca.

“O que eles querem é acesso a programas de moradias e serem assalariados. É preciso dar oportunidades, existir relações entre o setor público e o privado. São pessoas invisíveis, não é uma ajuda pontual que soluciona o problema”, complementa.

Vladmir* foi expulso de casa, no Espírito Santo, devido ao alcoolismo. Na expectativa de conseguir emprego em BH, ele acabou nas ruas, onde está há dois anos. O pedreiro tenta se livrar do vício e retomar a vida para voltar pra família. “Sei que ninguém dá emprego pra gente. Primeiro, quero ficar bem da cabeça. Minha filha não quer me ver assim de novo”, desabafa.

 

Equipe tenta traçar saídas em conjunto

Atualmente, Belo Horizonte conta com cerca de mil vagas em casas de passagem, abrigos e condomínios sociais – 120 delas abertas em abril deste ano. Segundo a prefeitura, o número é suficiente. Em média, são realizadas 120 abordagens diárias de moradores de rua, com assistentes sociais e psicólogos. 

De acordo com o município, o Serviço Especializado em Abordagem Social conta com uma equipe de profissionais com formação superior, “procurando constituir um vínculo de confiança” com os moradores e, a partir daí, traçar com eles um caminho de saída das ruas.

* Nome fictício


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