A noite da última terça (6) foi diferente para o escritor Luiz Rufatto. Sua filha, Helena, que dos 8 aos 25 anos foi criada só pelo pai, mudou-se para a própria casa.

Com isso, Rufatto deixou de integrar uma minoria: a dos 3,6% de famílias brasileiras com filhos em que só o pai está presente. Fatia reduzida, mas que cresceu 16% em dez anos, até 2015 (último dado disponível), segundo o IBGE.

No estado de São Paulo, a expansão é ainda maior, de 27%, chegando a 3,3%.

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Rufatto, 57, assumiu integralmente a criação de Helena quando sua mulher não resistiu a uma cirurgia de correção de válvula cardíaca. “A primeira coisa que veio à cabeça de todos é que Helena teria que ser criada pelos avós. Mas eu bati o pé e não abri mão de criá-la sozinho.”

A decisão deu lugar a um aprendizado muito interessante, diz ele. “Para mim, ao assumir alguns papéis que, na nossa sociedade machista, não são do homem: faxinar, lavar roupa. E isso deu a ela uma visão diferente dos papéis masculino e feminino.”

Uma mudança nesses papéis é cada vez mais perceptível na sociedade, segundo pesquisadores, psicanalistas e juízes da área de família. Concentrado na classe média, o movimento teve como gatilho a ida voluntária das mulheres para o mundo do trabalho.

De um lado, isso afetou o papel masculino de provedor; de outro, aumentou a pressão para que os homens participassem mais da criação dos filhos. Como consequência, eles se perceberam valorizados ao carregar o bebê no sling ou levar as crianças ao parque, e puderam experimentar uma tipo de ligação que desconheciam.

“O amor sempre esteve lá, mas o laço afetivo mudou: o homem sentiu que sua
presença é mais importante que seu dinheiro”, afirma a psicanalista Vera Iaconelli, colunista da Folha.

A mudança de percepção em seu meio social permitiu que ele “se sinta viril no lugar de pai que cuida dos filhos, um lugar que antes era da mãe”.

Aos poucos, a nova perspectiva vai se expandindo tanto para famílias mais pobres quanto para as muito ricas, ambas ainda muito patriarcas, afirma a professora de psicologia da USP Belinda Piltcher Haber Mandelbaum, pesquisadora de família, relações de gênero e sexualidade.

No geral, ainda é a mulher que lidera o cuidado com os filhos, mostra pesquisa do Instituto Locomotiva feita em julho: 89% dos homens dizem que é importante participar dessa tarefa tanto quanto a mulher, mas só 16% afirmam fazê-lo.

Nem sempre é fácil ocupar esse lugar, conta o cozinheiro Arturo Cardenas, 48, que se viu como único responsável por Robert quando o menino tinha 4 anos e a mãe os abandonou. Forçados a deixar seu país natal, a Colômbia, os dois chegaram a São Paulo em 2015.

“Desembarquei na rodoviária da Barra Funda sem um real no bolso. Não conhecia ninguém, nem falava português”, conta o cozinheiro Cardenas, que hoje divide com o filho um quarto na zona sul paulistana e se desloca de bicicleta para economizar a condução.

Não são as dificuldades práticas, porém, que mais o preocupam. Cardenas acha que seu filho, hoje com 14 anos, precisa de muito carinho e afeto. “A mãe faz isso melhor. Para o homem é mais complicado, não tive essa preparação.”

Mais do que de um homem ou de uma mulher em casa, as crianças precisam é de quem exerça papéis maternos e paternos, ressalta Belinda.

E uma mesma pessoa pode dar conta de nutrir, acolher, dar banho e carinho e, por outro lado, de colocar limite e lançar a criança para o mundo e os outros.

Ainda que existam diferenças entre os gêneros no jeito de tratar as crianças, elas não prejudicam o resultado final ressalva o psicanalista Francisco Daudt: “Ambos os sexos podem estar mais atentos às peculiaridades de seus filhos, e assim os educarão melhor”.

De fato, dezenas de pesquisas compiladas nos EUA pela socióloga Roberta Coles, da Marquette University, mostram que filhos de pais sozinhos saem-se tão bem quanto os de casais ou mães solteiras, tanto na escola quanto no comportamento.

Os estudos também indicam que, nos EUA, esses pais são os que dedicam aos filhos o maior número de horas, superando a dedicação de mães casadas e até a de mães solteiras —o que pode ter como causa o fato de que a condição econômica deles é melhor.

“Mas ninguém cuida sozinho dos filhos”, pondera Belinda. “Cria-se uma rede. O pai precisa trabalhar, e haverá uma avó, vizinha, professora ou amigo que o ajudará.”

Ruffato, por exemplo, não tinha nenhum parente em São Paulo, mas tinha o apoio de uma diarista, e foi uma amiga sua que levou Helena pela primeira vez ao ginecologista. “Maquiagem e penteados ela precisou aprender com as amigas e as mães delas.”

Apoio semelhante tem o administrador Fernando Trevisan, 39, que cuida sozinho da filha Clarice, 6, desde que sua mulher morreu durante uma cirurgia cardíaca, quando a menina tinha 3 anos.

“Os pais e mães das colegas de escola foram muito importantes no dia a dia. Minha figura de pai foi o pilar central, mas, sem essa ajuda, não teria chegado até aqui.”

Trevisan diz que ainda há quem estranhe ele criar a filha sozinho. “Alguns perguntam se ela mora com os avós. Se fosse uma mãe solteira, talvez a questão não se colocasse.”

Ele nota que as dificuldades que encontra são, no fundo, iguais às que teria uma mulher na mesma situação.

A primeira é justamente dar conta dos papéis materno e paterno. “Se são duas pessoas, uma pode ser mais dura enquanto a outra abraça e acolhe. Sozinho, nem sempre dá para assumir as duas atitudes.”

A segunda é a falta de alguém com quem trocar ideias sobre educação, comportamento. “É na solidão que tomo as decisões, então tento ser o mais ponderado possível. Procuro imaginar o que a mãe dela me diria.”

Um terceiro ponto importante, diz Trevisan, é não se sentir culpado por cuidar também da própria vida —jogar futebol com os amigos, por exemplo. “Temos que estar bem para que os filhos se sintam bem ao nosso lado.”

Não só nos momentos de necessidade, mas também nos de separação dos casais cresce o número de homens que fazem questão de ficar com as crianças, dizem juízes da área de família. Mudanças nas leis que tratam de custódia, em 2008 e 2014, impulsionaram esse fenômeno ao tornar regra a guarda compartilhada.

Segundo a juíza Sabrina Menegatti Pítsica, há seis anos em varas de família, há “como nunca” homens querendo exercer unilateralmente a guarda dos filhos.

Muitas vezes ainda é a mulher que resiste à ideia, o que levou grupos de pais a se organizarem, afirma o juiz André Carias de Araujo, especialista em conciliação e mediação.

Mas, ao menos nos grandes centros urbanos, também esse preconceito feminino está mudando, afirma juiz Roberto Arriada Lorea, há 13 anos na área. “Talvez esse tabu esteja sendo superado, e a mulher já não necessite ter os filhos morando consigo para provar que é uma boa mãe.”

Segundo ele, em vários casos a decisão tem levado em conta não um julgamento sobre quem é o melhor genitor, mas a necessidade dos filhos. “A distância da moradia até a escola, disponibilidade de horários para atender às crianças, momento da carreira —acadêmica ou profissional— de um e de outro”, afirma.

“Que os pais assumam a responsabilidade e compartilhem seu amor é um caminho sem volta”, diz a juíza Sabrina.


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