O jornalista, ensaísta e dramaturgo Otavio Frias Filho, diretor de Redação da Folha, participa de debate na Flip, em Parati – Raquel Cunha-1º.ago.14/Folhapress

Otávio Frias Filho, diretor de redação da “Folha de S.Paulo”, morreu nesta terça-feira (21), aos 61 anos, em São Paulo. Otávio estava internado no Hospital Sírio Libanês, no Centro da capital, e lutava contra um tumor no pâncreas desde 2017.

O velório será no Cemitério Horto da Paz, em Itapecerica da Serra, na Grande São Paulo, e a cerimônia de cremação às 13h30, no mesmo local.

Casado com Fernanda Diamant, editora da revista “Quatro Cinco Um”, deixa duas filhas, Miranda e Emília, e os irmãos Luiz, Maria Cristina e Maria Helena.

Filho de Dagmar Frias de Oliveira e de Octavio Frias de Oliveira, empresário que comprou em 1962 a “Folha de S.Paulo”, Frias Filho nasceu em São Paulo no dia 7 de junho de 1957.

Entre 1975 e 1983, estudou Direito e Ciências Sociais na Universidade de São Paulo (USP). Enquanto isso, na “Folha”, assessorava o então diretor de redação, Cláudio Abramo, e seu pai, publisher do jornal.

“A memória do meu pai é um emblema muito importante na minha vida, na minha formação”, disse.

Em 1984, assumiu, aos 26 anos, a função de diretor de redação. Enfrentou resistência interna e externa, especialmente porque era filho do dono, mas conseguiu conduzir várias reformas no jornal, se tornando uma das figuras mais importantes do mercado jornalístico brasileiro.

Já no primeiro ano sob sua direção, o jornal encampou o movimento das “Diretas Já”, que pedia eleições diretas para presidente após o mandato de João Figueiredo. Com isso, a Folha se consolidava um veículo de imprensa independente das forças políticas.

Nos 50 anos do Golpe de 1964, sob a direção de Frias Filho, a Folha abordou o tema da ditadura militar: “Às vezes se cobra desta Folha ter apoiado a Ditadura durante a primeira metade de sua vigência, tornando-se um dos veículos mais críticos na metade seguinte. Não há dúvida de que, aos olhos de hoje, aquele apoio foi um erro.”

Em 1989, a Folha foi o primeiro jornal brasileiro a implantar a função de Ombudsman, profissional responsável por opinar sobre o trabalho interno da publicação com total liberdade.

Foi um dos responsáveis pela consolidação do processo de modernização do jornal, tornando a “Folha” uma publicação radical na busca por independência e isenção.

Quando assumiu o controle da redação, lançou o Projeto Folha, que transformou o jornal. Criou o “Manual de Redação”, que prega um texto mais descritivo, rigoroso e impessoal.

Grupo Folha

Além do jornal, sua família é proprietária do Grupo Folha, um dos principais conglomerados de mídia do país e reúne hoje cinco empresas.

Fazem parte do grupo a “Folha”, a empresa de conteúdo, produtos e serviços de internet UOL, a gráfica Plural, a editora Publifolha, o instituto de pesquisa Datafolha e empresa de meios eletrônicos de pagamentos PagSeguro.

A história do Grupo Folha começou em 1921, com o lançamento do jornal “Folha da Noite”, em São Paulo. Depois vieram os títulos “Folha da Manhã” (1925) e “Folha da Tarde” (1949). Os três jornais foram fundidos em 1960 para dar origem à “Folha de S.Paulo”, jornal de maior circulação no país.

Em 2000, participou da criação do jornal “Valor Econômico”, uma parceria do Grupo Folha com o Grupo Globo. Em 2016, o jornal passou a ser totalmente do Grupo Globo.

Em 1996, em entrevista ao programa da TV Cultura “Roda Viva”, falou sobre a tentativa de fazer jornalismo “crítico, apartidário e pluralista”: “Ou seja, o jornalismo que se preocupa em trazer ao leitor todo tipo de controvérsia e que procura espelhar nas suas páginas as diversas tendências políticas, econômicas ou culturais”.

Recebeu em 1991, em nome do jornal, o prêmio Maria Moors Cabot de jornalismo, da prestigiosa Universidade de Columbia (EUA).

Entre 1994 e 2004, Frias Filho escrevia semanalmente às quintas-feiras uma coluna na página de opinião da “Folha” (compiladas no ano 2000 no livro “De ponta-cabeça”).

Em 2005, em entrevista na série “Protagonistas da Imprensa Brasileira”, do site Jornalistas&Cia, definiu seu trabalho na “Folha” como de um “moderador” de “inúmeras tensões”. “Considero positivo, dentro de certos limites, que isso ocorra, até para que o jornal não se transforme numa entidade monolítica, de pensamento único.”

Jornalismo e teatro

Também na entrevista de 2005, ele falou sobre seus interesses fora do jornalismo, principalmente no teatro, e admitiu não ter a “paixão pela notícia” de um repórter.

“Eu não sou um repórter nato. Pelo contrário, a rigor nunca exerci a atividade de repórter. Estou num ambiente de jornal há muito tempo. (…) Venho aqui a esse prédio regularmente desde os 17 anos, com prazer (…) Como não tenho esse entusiasmo todo, em momentos delicados consigo o distanciamento necessário para analisar com mais serenidade os fatos.”

Ele teve três peças de teatro publicadas no livro “Tutankaton” (Iluminuras, 1991). Quatro peças suas foram encenadas: “Típico Romântico” (1992), “Rancor” (1993), “Don Juan” (1995) e “Sonho de Núpcias” (2002).

Publicou em 2003 “Queda Livre” (Companhia das Letras), livro de ensaios que junta reportagem, autobiografia e observação antropológica. É também autor de “Seleção Natural” (Publifolha, 2009).

Câncer

O câncer de pâncreas é considerado por especialistas como uma das formas mais letais de tumor maligno. Ele costuma matar 95% dos pacientes em cinco anos. Foi essa doença que matou, por exemplo, Steve Jobs, cofundador da Apple, e a cantora Aretha Franklin.

Frias Filho foi diagnosticado com a doença no ano passado. Desde então, vinha tratando no Hospital Sírio-Libanês.


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