Coluna – Adiar é preciso

A última posição do Comitê Paralímpico Internacional (IPC, em inglês) sobre a pandemia do novo coronavírus (Covid-19) e a Paralimpíada de Tóquio, no Japão é de que “o planejamento e a preparação continuam, com o evento marcado para ser aberto em 25 de agosto”. Ainda segundo a nota do IPC, publicada no site oficial da entidade na última quinta-feira (12), os atletas devem seguir “treinando forte para os Jogos e mostrar entusiasmo para a cerimônia de abertura e o início da competição”.

O discurso é na linha do pronunciamento mais recente do primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe. No sábado (14), ele reafirmou a intenção de realizar os Jogos Olímpicos e Paralímpicos nas datas pré-determinadas e que o assunto está sendo “bem coordenado” junto ao Comitê Olímpico Internacional (COI). Disse, também, não ter discutido o adiamento ou cancelamento dos eventos na conversa mantida com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que defendeu a mudança de data dos Jogos.

O surto da doença, que matou cerca de 5,5 mil pessoas em todo o mundo e tem número de infectados superando 143 mil em mais de 135 países, já compromete a realização dos Jogos. Isso é fato. Eventos-teste e classificatórios para a Paralimpíada são suspensos desde fevereiro, o que impacta tanto atletas garantidos (que precisarão alterar a planificação de treinos para atingirem o 100%) como os que ainda precisaram estabelecer marcas. O Open Internacional de atletismo e natação, marcado para o Centro de Treinamento Paralímpico, em São Paulo, foi a baixa mais recente – acertadamente cancelado, diga-se.

Quanto aos quase 40 eventos cancelados ou adiados (isso só até o último dia 12, segundo o IPC), a entidade máxima do paradesporto explica que “as federações internacionais são responsável pelos critérios de qualificação de seus esportes”, garante que está em “diálogo regular com cada uma delas e oferecendo apoio para o que precisarem”. Ocorre que, para eventualmente revisar esses critérios, essas federações precisam de uma posição – o quanto antes, se possível para já – sobre a Paralimpíada. Será na data prevista? Será adiada? Será cancelada? Ainda não se sabe.

Atletas, comissões técnicas e comitês nacionais aguardam uma posição oficial do IPC e do Comitê Organizador dos Jogos para saber o que fazer. E, pelo menos a princípio, não soa coerente a manutenção do maior evento paradesportivo do planeta na data prevista. Embora o epicentro do Covid-19 tenha migrado da Ásia para a Europa, não há garantias de que o mundo estará com a pandemia controlada até o início da Paralimpíada, e muito menos para a Olimpíada. Há uma questão de saúde pública.

Do ponto de vista esportivo, o rendimento competitivo está comprometido. A falta de ritmo impacta o planejamento das comissões técnicas para os atletas, que ainda podem ter seus treinamentos suspensos, por precaução – além, claro, de nem todos terem condições de realizar determinadas atividades de casa. E vale lembrar que, conforme o grau da deficiência, determinados esportistas podem ser mais suscetíveis ao Covid-19 que outros.

No caso da Paralimpíada, há um detalhe particular: a classificação funcional, que é a definição de qual deve ser a categoria de cada atleta e até mesmo para avaliar se a deficiência do cidadão o credencia ou não para integrar o movimento. O processo costuma ser feito antes de competições – que, por sua vez, estão suspensas. O IPC afirma que pediu às federações e comitês nacionais para priorizarem a classificação de competidores já garantidos em Tóquio, e que as tem “encorajado a explorar oportunidades adicionais” que auxiliem a diminuir o “atraso” dos eventos cancelados.

Adiar eventos do tamanho de uma Paralimpíada ou de uma Olimpíada não é simples. Há interesses comerciais do país-sede e de investidores. Contudo, num momento que competições milionárias como a maior liga de basquete (NBA) e o torneio de clubes mais importante do planeta (Liga dos Campeões da Europa), entre outras, são paralisadas, é fundamental que os organizadores deem um posicionamento concreto sobre os Jogos. Pelo bem público e para que os protagonistas, os atletas, tenham segurança e condição para apresentar o melhor rendimento possível. O que, hoje, não parece factível.

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