‘O André vai me matar’, temia mulher de promotor antes de ser morta

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A reportagem de O TEMPO obteve com exclusividade partes do inquérito de mais de 3.000 páginas sobre a morte de Lorenza Maria Silva de Pinho, 41, mulher do promotor André Luís Garcia de Pinho, 52, que segue preso após ter sido denunciado pelo Ministério Público de Minas Gerais pelo crime de feminicídio, no último dia 30.

Além de informações sobre o laudo da perícia do Instituto Médico-Legal (IML), que constatou que Lorenza foi morta por asfixia, o documento reúne transcrições de mensagens e áudios trocadas por Lorenza com parentes, que comprovam o quão conflituoso e desgastante era a relação familiar de Lorenza com os filhos adolescentes e com o marido, com quem fora casada por 17 anos.

Os investigadores encontraram no quarto da vítima em meio aos pertences dela, uma agenda que Lorenza usava como diário, onde ela relatava e descrevia como era sua relação com o marido, filhos, pai e familiares. Na maioria das páginas, ela ressaltava as inúmeras e constantes brigas com o marido que sempre a culpava dos problemas domésticos.

Medo de ser morta

Nas mensagens, Lorenza fala do medo que ela tinha de ser morta pelo promotor André de Pinho durante brigas e discussões do casal. “No calor de qualquer desentendimento, alguém tem que baixar a guarda. Porque o André vai me matar, verdade”, disse Lorenza em uma das mensagens endereçadas à família paterna dela.

Em outra troca de mensagens com a família dela, Lorenza ainda conta que já havia deixado pronta a mensagem que seria enviada para amigos e parentes no dia da morte dela.

“Informamos que na data de hoje, nossa querida e amada mãe, esposa e amiga Lorenza Pinho partiu para agora habitar junto ao Jesus Cristo. Sua partida, um dia após seu aniversário, foi enquanto ela dormia, em paz…”, escreveu ela. Lorenza declara ainda que desejava morrer dormindo, um dia após celebrar seu aniversário. 

Religião e outros conflitos

Num dos trechos do diário, Lorenza revela que era obrigada a seguir a religião do marido. Ela pedia a Deus para que André parasse de forçá-la a ir em cultos africanos para receber entidades. O que ela não gostava de fazer, mas ia porque Pinho era praticante assíduo de cultos em um ‘terreiro’, na região de Venda Nova.

“Pedi a Jesus Cristo em oração o bloqueio do meu corpo para receber qualquer entidade. Eu não quero e não vou mais ceder meu corpo físico para isso”, dizia ela.  

André era brigado com o sogro

Em troca de mensagens com o marido, Lorenza demonstrava que o promotor André não queria que ela mantivesse contato com o pai dela, o ex-aviador Marco Aurélio Silva, 73, porque a relação entre ele e o sogro era conflituosa.

Em outro trecho, ela demonstra a vontade de passar as festas de fim de ano na casa da família paterna. “Eu e o bebê recém-nascido poderíamos passar o Natal e o Ano Novo aí com vocês? Esse povo aqui em casa está precisando sentir falta, saudades”, relatava Lorenza. 

Dificuldades financeiras

Nas conversas, a mulher do promotor fala das inúmeras dívidas que o casal possuía com construtoras, escolas dos cinco filhos e das dificuldades para pagar contas básicas. 

Em uma das conversas com parentes, Lorenza contou que havia pensando em se matar e pede ajuda para ir embora. “..Outro dia eu coloquei o revólver do André na boca. E fiquei com o chuveiro ligado, sentada no vaso. Pensando: atiro ou não atiro. Eu não quero mais ficar aqui. Me ajude pelo amor de Deus. Eu quero ir embora…”, disse. 

Saúde debilitada 

Lorenza também falava sobre sua debilitada saúde para os parentes. Contava suas inúmeras idas e vindas ao hospital Mater Dei. Em 2016, ela sofreu dois abortos espontâneos. Em 2018, ficou grávida de seu último filho – a criança de pouco mais de dois anos. A gravidez foi de alto risco devido complicações na gestação.

Houver várias internações devido ao quadro gestacional de risco. Dois meses após o parto Lorenza foi diagnosticada com leucemia onde ficou um ano, internada. Ela narrou a parentes sua luta contra a doença.

Logo depois, Lorenza fala de outros males como seu uso contínuo de opioides – analgésicos à base de morfina para tratar dores crônicas.  Entre os anos de 2005 e 2018, o laudo médico de Lorenza no hospital Mater Dei possuía mais de 14 mil páginas.

Conforme relatado no inquérito, dias antes de morrer Lorenza deu entrada no hospital passando mal por ter ingerido bebida alcoólica com antidepressivos.

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Apoio:

Alexandre Santos Gomes advogado em Capinópolis

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