“Mais de cem roupões”. Essa é a estimativa que Marc Rebillet faz quando questionado sobre a peça que virou sua marca registrada nos últimos meses. “Mas são apenas roupões, eles vão e vêm”, diz ele, de camisa branca, numa chamada de vídeo.
 
Rebillet está ciente de que suas principais ferramentas de trabalho são um teclado, uma câmera conectada à internet, um telefone –às vezes– e a loopstation, um aparelho que pode armazenar um sem-fim de ruídos e repetir todos eles em ciclo como uma bateria eletrônica.

 
 
É com esse arsenal que o artista americano faz sua música –um fluxo quase contínuo de uma hora e meia repleta de improvisos, piadas e batidas energéticas. Encarnando algo entre jazzista escrachado, rockstar involuntário e apresentador de talk show do mundo pós-TV, Rebillet se tornou uma estrela em meio à pandemia. Ele é uma banda de um homem só, incluindo os papéis de mestre de cerimônias, técnico e responsável pela comunicação. Tudo isso sem sair de casa.
 
“É estranho dizer isso, mas eu tive sorte com essa pandemia”, reflete o músico. “Quando isso tudo começou, eu já estava bem posicionado para fazer o que eu faço hoje porque eu já vinha fazendo isso por anos, eu tinha uma fórmula.”
Logo que a pandemia deu as caras, músicos do mundo inteiro se viram às voltas com a ideia de fazer shows em plataformas digitais. Mas o que se convencionou chamar de live, afinal, não é um concerto típico. Há ali interações em tempo real com o público, novos tipos de remuneração, formas musicais incomuns aos palcos e até mesmo questões técnicas –transmitir uma apresentação pela internet, ao contrário do que faz pensar o mito, pode ser uma tarefa complicada.
 
Nos últimos anos, Rebillet já vinha tateando esse mundo que, hoje, é conhecido como streaming ou livestream –transmissões em vídeo feitas por pessoas comuns que englobam de um tudo, de games a mesas redondas. Produto de uma era em que plataformas como Twitch e TikTok se confundem tanto quanto gêneros, o artista domina não só essa estrutura, como sua linguagem.
 
Seu estilo se alimenta da descartabilidade de vídeos e músicas cada vez mais curtos e vem carregado de uma verve nonsense que costura temas contemporâneos como positividade tóxica e autodepreciação. No caso de Rebillet, esse caldo foi dar em sessões ao vivo no YouTube que não são apenas uma forma de divulgar seu trabalho –o que costuma ser mais comum para artistas–, mas também uma forma de fazer música.
 
Um dos pontos altos dos seus vídeos, por exemplo, são as chamadas telefônicas. Entre uma música e outra, ele atende fãs que, numa conversa fiada, lançam temas para seus improvisos. Foi assim que Rebillet criou um gospel desses americanos sobre fazer cocô nas calças e, numa outra oportunidade, improvisou um funk suingado que versava sobre vacinação. “Eu fiz isso baseado numa sitcom que eu gostava, ‘Frasier’, e gosto dessa coisa de telefone, tem uma estética por trás disso”, diz o artista.
 
Sempre no calor do momento, Rebillet vai montando músicas como se estivesse perseguindo notas, acordes e seções. Ele ensaia uma batida com a boca ou com o teclado, cantarola algumas frases, adiciona um trecho de melodia e, empilhando camadas, busca o que melhor se encaixa no quebra-cabeça.
 
“Quando eu estou fazendo música eu sinto que estou no modo sobrevivência”, ele explica. “E vou fazendo coisas com muita energia, coisas mais tranquilas, mais doces. Eu preciso chegar a um destino, e tudo que eu faço é para chegar a esse ponto.”
 
É um método que, embora brinque com diferentes sons, tem uma dose de repetição. Rebillet cria momentos de clímax pouco a pouco até que, subitamente, corta o tema e, num silêncio suspenso, volta ao refrão. Essa estrutura faz sucesso na música pop atual, mas raras vezes ela surge com o misto de despretensão e repertório sofisticado do artista –ele pode ir de linhas de piano de jazz clássico a batidas de hip-hop em alguns poucos toques no maquinário.
 
A peça-chave de suas performances é a tal loopstation. Não fosse por ela, Rebillet teria desistido da música. Ele estudou piano na adolescência e, depois de largar a faculdade, tentou se lançar como produtor musical.
 
Acumulando empregos de curta duração –de suporte técnico a corretor de imóveis–, o então músico desiludido se encontrou quando assistiu a uma apresentação do comediante e produtor americano Reggie Watts.
 
“A maneira como ele usava a loopstation me deixou maluco, era algo muito inovador e foi algo que me inspirou muito”, diz Rebillet. “Assim que fui demitido do meu último emprego fixo, em 2014, eu resolvi tentar aquilo em um restaurante da minha cidade que abria para shows aos fins de semana.”
 
O espaço não podia ser mais estranho a alguém que havia tentado a vida no hip-hop –interior dos Estados Unidos, mesas grandes, famílias pacatas, barulho de cozinha e molecada correndo. Em uma de suas apresentações, Rebillet usou o microfone para anunciar que o jipe preto estacionado na entrada do estabelecimento estava em vaga irregular. Era Dia dos Pais e, em seguida, ele emendou uma música com ajuda das crianças que dançavam ao som do seu teclado. Tudo, é claro, transmitido pela internet.
 
“Quando comecei esses shows eu tinha expectativas baixas, e era um ambiente muito único porque ninguém sabia muito bem o que esperar de mim”, ele lembra. “Mas os shows começaram a encher mais e mais e a última apresentação estava lotada. Teve um cara que viajou de outro estado só para me ver lá, e eu nunca tinha vivido algo assim.”
 
O músico já vinha numa crescente de shows e turnês internacionais nos últimos cinco anos, mas o confinamento forçado foi o empurrão que faltava para que sua popularidade explodisse. Hoje, seu canal no YouTube acumula mais de 130 milhões de visualizações, número considerável para um artista independente.
 
Entre os vídeos mais vistos estão uma curta apresentação de Rebillet com a artista Erykah Badu e uma sessão de improviso com ele, o próprio Reggie Watts e o produtor Flying Lotus. Esses nomes são referência na expansão estética do hip-hop, cruzando com esse idioma formas jazzísticas e sonoridades de música eletrônica de pista.
“Eles são meus ídolos”, diz Rebillet. “Conhecer todos eles e tocar com eles foi uma das maiores experiências da minha vida.”
 
Acostumado com o frisson do ao vivo, que pode ser um terreno perigoso ou um molde engessado para muitos artistas, Rebillet agora tem como desafio o exato oposto –gravar um disco de estúdio, num ambiente totalmente controlado. Esse processo, ele conta, demanda técnicas e habilidades que não fazem parte do seu dia a dia de streaming. Nos últimos meses, ele também tem ensaiado para sua próxima turnê, que passará por Estados Unidos e Europa.
 
O músico não descarta uma vinda ao Brasil antes de se lançar no projeto do disco. Muitos fãs brasileiros comentam no seu canal do YouTube, e alguns até enviam dinheiro e novos roupões para o artista. Boatos de que ele estaria no Lollapalooza em 2022, contudo, são desmentidos pelo próprio. “Meu nome está muito pequeno nesse cartaz que está circulando por aí”, diz ele, fazendo graça.

Magazine Brasil Líbano Dia dos Pais
Alexandre Santos Gomes advogado em Capinópolis
Ouça o podcast do Tudo Em Dia:

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