O escritor, historiador e genealogista Daniel Antunes Júnior está em clima de festa. No dia 17 de setembro deste ano ele completou 100 anos com muita alegria e em paz com a velhice. Ou, como ele mesmo define: “Com a mente lúcida, o corpo ainda em forma e feliz por alcançar essa dádiva generosa dos deuses”. 

Antunes Júnior fez carreira como bancário e administrador de um sem-número de empresas vinculadas ao setor financeiro durante mais de 50 anos. Porém, ele nunca escondeu de ninguém sua paixão pela literatura, que foi expressa ao longo dos anos na publicação de livros importantes, como “Lençóis do Rio Verde: Crônica do Meu Sertão” e “Coração de Prata: Contos Correntes”. 

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Pensador compulsivo desde a infância, ele conta que o contato com o mundo da literatura começou muito cedo, ainda na primeira metade do século passado. “Eu tinha um amigo querido que me emprestava muitos livros quando ainda éramos meninos”, rememora.  

De leitor, ele logo passou a seguir o exemplo de seus heróis literários e acabou se aventurando também pela escrita. “O amor pela palavra foi só crescendo e alimentando em mim um desejo invencível de virar escritor, ainda que modesto”, confessa em tom humilde. 

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Ao longo dos anos, Daniel Antunes Júnior acabou se tornando um cronista de talento ímpar e ficou conhecido por investigar de forma rica e cativante as belezas e as complexidades do cotidiano de sua cidade natal, Espinosa, terra do sertão norte-mineiro.  

“Meu fascínio com o dia a dia da região veio do meu contraparente Antonino Neves, que era um escritor máximo da geografia e da história do Norte de Minas. Foi com ele que eu descobri a grandeza da crônica literária, que, ao meu ver, é a modalidade mais leve e atrativa da escrita”, reflete o autor, que é membro da Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais.  

Momento assustador

Testemunha de muitos acontecimentos marcantes, o escritor comenta que ficou alarmado com a pandemia da Covid-19 e que não se lembra de ter vivido nada igual antes. “O coronavírus foi algo assustador, porque parou nossas vidas e trouxe muitas limitações”, avalia ele.  

Mas, mesmo diante da gravidade do momento, Antunes Júnior mantém a positividade. “A gripe espanhola, assim como acontece agora com o coronavírus, foi um fenômeno mundial que trouxe grandes problemas para a humanidade, mas passou. Ninguém gosta de ficar isolado, porém vamos sobreviver a isso também, e espero que em breve estejamos livres desse flagelo da humanidade”, aspira. 

Defensor do conhecimento tecnológico, o escritor aproveitou o confinamento para se familiarizar com o meio digital. “A tecnologia moderna facilitou muito os trabalhos literários. Hoje você digita, formata, e o resultado vai direto para impressora. É uma maravilha”, comemora.  

Questionado se já pensou em escrever uma autobiografia, ele despista. “Minha história de vida não é tão importante ao ponto de me seduzir a levá-la para as páginas de um livro”, diz. 

Mas, apesar das dez décadas de vida, Daniel Antunes Júnior segue emanando vitalidade e não tem planos de parar tão cedo. Inclusive, ele já prepara, para antes do fim do ano, o lançamento de mais um livro, o sexto da carreira.  

Com o título “Catálogo Genealógico das Famílias Antunes e Tolentino”, a obra vai retraçar as origens ancestrais de duas famílias nobres que aportaram no Brasil ainda no período colonial fugindo de perseguições na Europa. 

“Minha produção literária poderia ser melhor se não fosse a preguiça mental que muitas vezes me leva a deixar para amanhã o que deveria ser feito no momento presente. Preciso me focar para fazer tudo com prontidão porque a vida não é ilimitada, né?”, conclui entre risadas. 

Trajetória 

Nascido em 1921, no município de Lençóis do Rio Verde, hoje Espinosa, no Norte de Minas Gerais, perto da divisa com a Bahia, Daniel Antunes Júnior foi bancário e administrador de empresas financeiras por mais de 50 anos, além de genealogista, historiador, fazendeiro e jornalista nas horas vagas. Ele é membro efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais, da Arcádia de Minas Gerais, da Academia Mineira de Leonismo e da Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais.  

Antunes Júnior tem cinco livros publicados na carreira: “Lençóis do Rio Verde: Crônica do Meu Sertão”, “Coração de Prata: Contos Correntes”, “Crônicas Gorutubanas”, “Celebrando a Vida: Poemas Outonais e Contos” e “A Colonização Brasileira e o Livro do Tombo da Casa do Conde da Ponte”. Viúvo desde 2020, ele é pai de cinco filhos: Dante, Silvana, Daniel, Sérgio e Sandra. 

Bibliografia de Daniel Antunes Júnior 

“Lençóis do Rio Verde: Crônica do Meu Sertão” 

“Coração de Prata: Contos Correntes” 

“Crônicas Gorutubanas” 

“Celebrando a Vida: Poemas Outonais e Contos” 

“A Colonização Brasileira e o Livro do Tombo da Casa do Conde da Ponte”

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Confira abaixo algumas crônicas de Daniel Antunes Júnior:

CAIPIRA LADINO. Engana-se quem pensa que o capiau da boa terra dos Lençóis é bobo e mofino. Besta é que ele não é. Certa vez no mercado municipal, um babaca paulista, querendo gozação com  um geraiseiro, da Serra do Pau d´Arco,  perguntou  sobre o enrolado que ele trazia na cacunda; É onça? Não Sior, é couro. É seu? Sior não, é da onça. Cê pegou-a a unha?  Não Sior, foi no tiro. Mas era onça boba, né?  Era onça cangussu. Pensei que ocê tinha comprado. Enganô, tô vendendo. Se Deus quiser cê vai fazer boa venda. Se Deus quiser comprar, eu vendo pra ele. Se não  quiser, vendo pra outro.

A LARANJADA MIRACULOSA. A pobre mulher não aguentava mais. Todo ano um novo rebento. A meninada, uma duzia já, formava uma escadinha do maior ao menor. Então ela procurou o médico pedindo uma orientação. O clínico indicou os métodos anti-conceptivos. Não adianta doutor, já experimentei todos em vão. Entao faça seguinte: de noite antes de se recolher com o marido tome uma laranjada e não precisa fazer mais nada. Só isso? Fácil assim? Só. Mas que maravilha! Ao despedir-se, teve uma dúvida e perguntou: Devo tomar a laranjada antes de ou depois de? Nada disso minha senhora. Nem antes de,nem depois de,mas em vez de.

SALVE A BALZAQUIANA. A balzaquiana é neologismo que remonta ao famoso romance “A mulher de trinta anos”, de Balzac, notável escritor francês. Mas hoje, graças ao avanço da ciência e notadamente da cosmética, ampliou-se a idade ideal da sílfide para muito além dos 40 anos. Certa vez eu trouxe dos EUA para a Conceição algumas unidades do badalado Eterna 27, creme para o rosto, que seria elaborado a partir da placenta. Dizia-se prodigioso para rejuvenescer e embelezar as mulheres. Fiquei curioso de saber o porquê do “eterna 27” e minha amiga, demonstradora da Macy’s, explicou: É que a mulher atinge o clímax da beleza e encantamento aos 27 anos de idade.

O QUE DEUS NÃO PODE FAZER. Ben Gorion, um dos líderes judeus que participaram da epopeia de restauração do Estado de Israel, disse que um rabino, ao qual foi perguntado se havia alguma coisa que Deus não podia fazer, respondeu: “Sim, é o passado que não pode ser refeito. Mas o futuro, até o homem pode fazer”. É claro que a realização dos nossos projetos,  sonhos e fantasias, depende  de fatores positivos e negativos. Temos que fazer a nossa parte, tocando o nosso barco com fé e determinação, ainda que os bons ventos não soprem para todos de maneira igualitária. Já dizia o nosso Guimarães Rosa: “Para uns, as vacas morrem: para outros até boi pega a parir.”

QUANTO VALE UMA BOA AÇÃO. Abnegado pastor americano, que angariava fundos para assistência social e educativa de meninos pobres, de rua, argumentava que,  se conseguisse, com o seu trabalho, salvar apenas uma criança da miséria e delinquência, ainda se sentiria gratificado e feliz. Alguém ponderou que isso seria muito pouco. Resposta: “Não, se fosse  meu filho, ou teu próprio filho, ou um filho do teu amigo”. Fantástico!

AS GOIABAS E OS PORCOS. Certa vez, a mãe Dinha Nena mandou o Mateus, meu irmão, levar, muito a contra-gosto, o almoço para o Cacique, nosso padrasto, (não gostávamos dele), na fazenda da Jurema. Para encurtar o caminho, o mano passou pela fazenda de nosso avô Felisberto, onde, trepado em carregada goiabeira, enquanto  se deliciava com os bons frutos, lá embaixo os porcos davam cabo do almoço. Mateus nada disse, mas não foi castigado. O Cacique ficou sem almoço, e certamente os porcos agradeceram. Mas à noite foi um Deus nos acuda. Dinha Nena ficou entre a cruz e a caldeirinha.

MATAR A COBRA E MOSTRAR O PAU. Em Lençóis do Rio Verde, Arestides Tolentino era amigo, mas adversário político de Zeca Cangussu. Ele contou-me a história da briga da família dos Pintos com a dos Pinheiros, cuja história eu compartilhei  com o Cel. Levy Silva, outro amigo, mas adversário político de Zeca Cangussu, cuja família na verdade era a dos Pintos, nome trocado para o da onça, em virtude da briga. Em comício num povoado de Tremedal , Levy zombou  da troca e disse que nao tinha medo de onça e  seria capaz de agarra-la pelo rabo, concluindo que era disso que matavam  a cobra e mostravam o pau . Nequinha de Filomena, correligionário do Levy, aplaudiu: Isso mesmo Cel. Mostre o pau pra eles.

AS DESVENTURAS E O SOFRIMENTO HUMANO. Relendo agora, ao acaso, trechos do romance “Crime e Castigo”, de Dostoievski, sem dúvida um dos grandes gênios da humanidade, deparei com uma das páginas mais  comoventes do grande drama de seus dois principais protagonistas: “De repente, Raskolnikov curvou-se até ao chão e beijou os pés de Sônia. Ela recuou assustada, como se estivesse diante de um louco. E, nesse momento, Raskolnikov parecia, realmente, ter perdido o juízo.  “Que faz?” – exclamou Sônia empalidecendo e sentindo o coração opresso. O rapaz levantou-se imediatamente e disse: “Não foi diante de ti que me curvei, mas diante de  todo o sofrimento humano”. É preciso ler o romance, na sua inteireza, para emocionar-se com a dramática eloquência do autor.

Alexandre Santos Gomes advogado em Capinópolis
Ouça o podcast do Tudo Em Dia:

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