30 anos sem Freddie Mercury: relembre a carreira do líder do Queen

Numa tarde de novembro de 1990, a banda de rock britânica Queen estava em seu estúdio de gravação em Montreux, na Suíça, onde ensaiava canções para “Innuendo”, 14º disco do grupo na carreira. Na época, o vocalista Freddie Mercury enfrentava em silêncio uma árdua batalha contra a Aids. 

Tocado pela dor do vocalista, o guitarrista e compositor Brian May decidiu escrever uma canção que traduzisse a obstinação do amigo naquele momento difícil e arriscou alguns versos emotivos: “Por dentro, meu coração está se partindo/ Minha maquiagem pode até estar escorrendo/ Mas meu sorriso permanece”.  

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Quando terminou, Brian mostrou a música para Mercury com medo que ele se recusasse a cantá-la, já que a melodia pedia uma interpretação em notas muito altas – o que exigiria um esforço enorme do debilitado cantor. Porém, Freddie respondeu com animação: “Não se preocupe, querido, eu vou arrasar!”.  

Na sequência, Freddie foi até o bar, tomou uma dose cavalar de vodca e partiu para a mesa de gravação para interpretar a recém-composta faixa “The Show Must Go On” – entregando, em uma só tomada, uma de suas performances mais celebradas na carreira. 

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Essa história talvez explique bem toda a veneração em torno do talento de Freddie Mercury, músico reconhecido por sua extravagância e genialidade, e que se tornou um dos grandes ícones da cultura pop.

Nesta quarta-feira (24), há exatos 30 anos, o mítico cantor morria em Londres, aos 45 anos, de broncopneumonia agravada pelo vírus do HIV/Aids. 

Um dos primeiros artistas do rock a se tornar vítima da doença, Mercury nunca se abateu publicamente e trabalhou duro até seu último suspiro para manter vivo o legado artístico do grupo.

“Ele amava a vida e festejava a existência a cada minuto”, lembra Brian May.

“Freddie foi um grande cometa que passou por nós e deixou um rastro de luz que vai brilhar ainda por muitas décadas”, resumiu o guitarrista. 

De frontman improvável a ídolo de uma geração 

Nascido como Farrokh Pluto Bulsara, no dia 5 de setembro de 1946, em Zanzibar, uma ilha semiautônoma na costa da Tanzânia, Freddie Mercury é um dos astros mais improváveis da história do rock.

Extremamente tímido, ele se mudou para a Inglaterra com a família no início dos anos 60. Já em Londres, Freddie se matriculou no Ealing Art College para estudar ilustração e design gráfico e começou a vender.  

O percurso que percorreu até chegar à fama, no entanto, lhe custou muito sofrimento: ele teve vários problemas com bullying por causa do seu jeito afetado e sua aparência particular. Mas, por fim, a música acabou sendo sua salvação. 

Ainda na faculdade de artes, ele conheceu o baixista e vocalista Tim Staffell, com quem passou a cantar nos intervalos das aulas. Na mesma época, Tim – que fazia parte de uma banda chamada Smile com o guitarrista Brian May e o baterista Roger Taylor –, levou Freddie para participar dos ensaios. 

No início dos anos 1970, Staffell decidiu deixar o grupo, e Freddie assumiu o posto de vocalista. A partir dali ele adotou o sobrenome “Mercury” e persuadiu os outros membros a mudarem o nome da banda para Queen. Logo depois, John Deacon uniu-se a eles como baixista, dando molde à formação clássica do quarteto. 

A facilidade com que Mercury dominava multidões nas arenas e seu talento para improvisações vocais acabaram transformando a banda em um enorme sucesso nas décadas de 70 e 80.  

“O Freddie trouxe uma mudança importante para o Queen, que era o experimentalismo sonoro e visual”, explica o jornalista cultural Lúcio Ribeiro, editor da “Popload” e curador do Popload Festival.  

“Ele era um frontleader fenomenal, e seu arrojo operístico-teatral casava-se perfeitamente com o som hard-rock-pop do grupo”, frisa. 

De fato, com Freddie Mercury como líder, o Queen se tornou um dos conjuntos mais populares de sua geração, emplacando hits clássicos como “Bohemian Rhapsody”, “We Are the Champions” e “We Will Rock You” e vendendo mais de 300 milhões de discos ao redor do mundo. 

Ecletismo como marca registrada 

Durante suas duas décadas de carreira com Freddie Mercury, o Queen apostou numa salada sonora completa que incorporava elementos de estilos distintos como prog rock, rockabilly, blues, funk, ópera e até gospel.

Tudo muito bem misturado, conduzido e executado como uma ciência musical exata, feita para não sair da cabeça.  

Tal qualidade, sem dúvida, é um dos elementos principais que mantêm os britânicos tão populares com cada nova geração.  

“O Queen é uma banda pioneira no sentido de ignorar fronteiras musicais, estéticas e artísticas dentro do cenário do rock. E isso é meio que a cara da música e da fruição pop contemporânea”, explica o jornalista, pesquisador e professor da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Thiago Pereira. 

“Cada vez menos se observam públicos presos a determinados ‘dogmas’ de afeto musical, principalmente entre a chamada ‘geração do streaming’, que se ocupa pouco com a noção de alguma forma de coerência de consumo. E o Queen é uma das maiores materializações, em forma de banda, dessa questão”, conclui.

Alexandre Santos Gomes advogado em Capinópolis

Fonte: O Tempo